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Os impactos da revolução de Jorge Jesus no futebol brasileiro

Uma análise, para além da superficialidade e da empolgação, do fenômeno Flamengo em 2019
Ontem (23), diante de um Maracanã lotado e com direito a mais um show da torcida rubro-negra, o Flamengo aplicou uma goleada histórica no Grêmio de Renato Portaluppi. O placar do jogo foi de 5x0. Sim, 5x0. Parece inimaginável que um time como o tricolor gaúcho, recentemente campeão da Libertadores, pudesse amargar um resultado tão humilhante. A derrota foi a pior da história do clube em competições internacionais e em mata-matas de todas as competições. O Grêmio nunca havia perdido uma partida eliminatória por cinco gols de diferença em toda a sua história. Assim, o Flamengo avassalador de Jorge Jesus conseguiu sua classificação para uma final que não vinha desde 1981, quando o histórico time comandado por Zico venceu o título. Porém, os impactos que as façanhas incríveis dessa equipe têm gerado um lado problemático da mídia.

O Flamengo de Jorge Jesus tem se notabilizado pelo futebol total. Intensidade, velocidade, concentração, ofensividade e um apetite fora do comum no futebol brasileiro. Faz uma das maiores campanhas da história do clube e da competição no Brasileirão. O desempenho dentro de campo é revolucionário. Esplêndido. Fenomenal. Esses e outros mais adjetivos são inteiramente justos para qualificar o que a equipe vem fazendo após a vinda do treinador português. Desse modo, o ponto principal deste texto é relativizar maneira pela qual os veículos de comunicação têm usado de uma ferramente desnecessária para exaltar o clube carioca, e sobretudo, o técnico Jorge Jesus. Em terras tupiniquins, existe uma ânsia incontrolável de unificar, de formalizar apenas um modelo de excelência a ser seguido, sendo necessário, portanto, que se agrupem todos os outros em um pacote destinado ao descarte. Resumidamente, Jorge Jesus vem causando um frenesi na mídia obcecada pela audiência a qualquer custo. No que tange ao abismo entre sua qualidade e a dos demais técnicos brasileiros, parece óbvio que ele existe. Contudo, as dimensões desse abismo podem ser  bem reduzidas para uma parcela da classe.

Relativizando o fenômeno, as condições de trabalho de Jorge Jesus incluem um elenco milionário, do qual se destacam três jogadores de nível de excelência na Europa (Marí, Rafinha e Filipe Luís). Obviamente, Abel também teve essas condições e nada conseguiu entregar, assim como Mano Menezes no atual Palmeiras. Esses fazem parte da parcela que, se não passar por um processo de reciclagem, deve ser descartado. Contudo, outros como o derrotado Renato Gaúcho e o tido como ultrapassado Vanderlei Luxemburgo compõem uma outra parcela, que dentro de suas condições de trabalho tem entregue resultado e desempenho. A começar pelo recém eliminado, o treinador do tricolor gaúcho dispôs de um orçamento bastante limitado e, consequentemente, obteve um elenco com muitas limitações. Diante disso, colocou o Grêmio entre os 4 melhores da Copa do Brasil e da Libertadores, além da posição bem próxima ao G4 do Campeonato Brasileiro. Já o atual técnico vascaíno, assumiu uma equipe eliminada da Copa do Brasil, lanterna do Brasileirão, com salários atrasados, crise política e o time sem nenhum resquício de confiança. Meses depois, o Vasco se encontra na 11º posição do campeonato (a 5 pontos do G6 e a 8 pontos do Z4), vem de 4 jogos sem perder, possui a quarta melhor campanha do returno e tem, pela primeira vez, a possibilidade de vislumbrar algo melhor para o futuro. Logo, há diferentes maneiras de se entregar bons resultados e bom desempenho dentro do que é possível baseado nas condições de desenvolvimento de um trabalho. Renato não ficou obsoleto por essa derrota (como alguns jornalistas tentaram induzir) , assim como o Luxa demonstra ainda ser um treinador de excelência. Por fim, generalizar é uma das formas mais infantis de interpretação, apesar de parecer um modus operandi inerente ao Brasil.

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