A consolidação de um "novo grande" - Análise do Athlético PR Campeão da Copa do Brasil em 2019

Entenda o futebol vistoso que levou o furacão à conquista inédita e à inserção de vez no "clube dos grandes" do futebol brasileiro



Reprodução/Paraná Portal

Já é possível dizer que o ano de 2019 foi um dos melhores da história do Athlético Paranaense, um clube que vem em franca e constante evolução nos anos 2000. Arena, CT e estilo de jogo frutos de um ótimo modelo de gestão. Moderno, o furacão vinha buscando seu lugar como um grande clube do futebol tupiniquim aos poucos, chegando com certa frequência às finais dos torneios mais importantes do calendário sulamericano. Se em 2005 e 2013 bateu na trave, em 2018 e 2019 o estrelado chegou com um futebol agradável e muito tático.

FORMAÇÃO HABITUAL


Escalação da final da Copa do Brasil contra o Internacional/ GloboEsporte

ANÁLISE TÁTICA

O Athlético de 2019 sofreu mudanças durante a temporada, algumas por lesão e outras devido à transferências. Porém, o esquema padrão variou muito pouco. Tiago Nunes montava seu time em um 4-3-3 com 2 meias capazes de fazer o "box to box" (defender e chegar no ataque). Bruno Guimarães e Léo Cittadini. Wellington era o único volante de contenção. Com a venda de Renan Lodi para o Atlético de Madrid logo no início e a lesão de Thiago Heleno, o bom lateral Márcio Azevedo e a revelação Robson Bambu acabaram por compor o time titular na maior parte da temporada.

Dito isso, o furacão de Tiago Nunes é, sobretudo, um time das transições e da velocidade. No entanto, isso não é tudo. Como todo grande time, o Athlético não é refém de uma única forma de defender, avançar e atacar. Há variações conforme o adversário e o momento do jogo.


  • Fase defensiva
No momento de defender, a ideia fundamental é pressionar. Geralmente, em bloco alto, mas também em médio. Dessa forma, dois conceitos são vitais. A pressão constante e o perde e pressiona (pressing e gegenpressing, respectivamente). 

Veremos primeiro, a pressão constante em bloco alto feita pelo CAP:


Era costume dessa equipe subir suas linhas para forçar o erro do adversário na saída de bola, buscando uma roubada no campo ofensivo ou a recuperação após um chutão ou passe errado. Interessante destacar a estratégia para aumentar a pressão. A 1º linha composta por dois jogadores nesse momento, procura fechar a linha de passe no meio e obrigar o adversário a sair pelo lado, onde há menos espaço e o time pode exercer mais pressão.

Em segundo plano, há o famoso perde e pressiona como mais uma forma de recuperação da bola muito utilizada pelo Athlético Paranaense. Veja o vídeo:


Sempre bem organizado ofensivamente, a disposição espacial do Athlético com a bola favorecia constantemente a recuperação imediata da mesma em caso de perda. Com o time bem agrupado, 4 e, às vezes, 5 jogadores são capazes de pressionar o portador da bola imediatamente e, assim, recuperá-la em poucos segundos. A grande vantagem dessa estratégia de marcação é a possibilidade de utilizá-la em qualquer zona do campo, desde que o time esteja compacto e próximo o suficiente do setor da bola.

De maneira usual, a disposição tática na fase defensiva do time de Tiago Nunes era em um 4-4-2. Como na imagem a seguir:


A 1º linha com dois jogadores, o centroavante e um dos meias. A 2º linha com 4 jogadores, o meia e o volante, e os dois pontas que recuavam pra fechar o corredor. E por fim, a linha de zaga. Nesse sentido, a marcação é feita por zona cujo referencial é a bola e o objetivo é preencher os espaços para impedir o avanço do adversário. Por extensão, esse tipo de marcação promovia uma grande compactação entre as linhas, criando uma zona de guerra intensa e difícil de ser batida.

Obviamente, ela também possui um ponto fraco. A compactação do time conforme a bola origina espaços no lado oposto, chamado de "lado fraco", por onde o CAP era vulnerável. 

Veja o vídeo:



Apesar de possuir fraquezas, a marcação por zona trás muitas vantagens, não à toa é amplamente difundida no futebol mundial, pois era justamente esse tipo de marcação que originava uma grande quantidade de contra-ataques, bem como costumava impedir que o adversário chegasse com facilidade ao gol do furacão. 

Não obstante, essa disposição tática possuía alguns artifícios. A equipe de Tiago Nunes se organizava para possuir superioridade numérica nos lados, tanto em bloco alto, como em bloco médio e baixo. Na imagem abaixo, há um exemplo:


Vale destacar que o trabalho de marcação é uma tarefa inteiramente coletiva. Todos precisam marcar no futebol moderno, e os jogadores do CAP executavam as suas tarefas defensivas com muita disposição. Nesse lance, o artifício para gerar superioridade é o triângulo formado por Bruno Guimarães, Azevedo e Rony, além de contar com a ajuda do centroavante Marco Rúben na pressão.

  • Fase ofensiva
No que se refere ao momento ofensivo, o Athlético de 2019 se dispunha da seguinte forma:


O esquema era o 4-3-3, que se desmembra em um 2-5-3 com os avanços dos laterais até o meio. Com a linha de zaga bem adiantada, o time possuía uma boa organização ofensiva, tanto para tramar jogadas, quanto para recuperar a bola rapidamente, em caso de perda. Em casos de jogos cujos adversários se fechavam no seu próprio campo, essa era a formação adotada para propor e construir o jogo ofensivo.

Lembrando mais uma vez, havia variações, mas a preferência do CAP era o jogo de transição. Diante disso, atrair o adversário na saída de bola era fundamental para gerar espaços no campo de defesa do mesmo. 

Observe o vídeo:


Nesse contexto, o papel do goleiro jogando com os pés é importantíssimo. É ele quem gera as superioridades sendo "mais um homem de linha", sendo responsável por aliviar a pressão com lançamentos. No lance acima, Santos acha Rony, que nesses momentos costuma cair por dentro, com espaço para usar sua velocidade para avançar e pegar a defesa do Boca em igualdade numérica. Logo, leva segundos para a bola sair do goleiro e terminar na finalização de fora da área de Nikão.

Em outro momento, quem sai com a bola são os zagueiros e os volantes. Léo Pereira e Wellington se revesam, quase sempre buscando lançamentos aos laterais, que estão bem abertos dando amplitude, ou em profundidade para Rony. A bola longa é um elemento fundamental na construção do rubro negro. 

Observe o vídeo:


Além disso, a chegada dos meias vindo de trás é uma forte marca da ofensividade dessa equipe. Bruno Guimarães e Cittadini, um mais organizador, e o outro mais finalizador de jogadas, são agressivos no ataque chegando regularmente dentro da área pra concluir. 

O gol na final da Copa do Brasil é um exemplo claro disso. Veja:



Para facilitar o trabalho deles, os atacantes costumam infiltrar nas costas da zaga em direção à lateral com o intuito de gerar espaço na entrada da área, o qual será fatalmente aproveitado pelos meias em questão vindo de trás.

Segue mais um exemplo:


E por fim, o contra-ataque. O ponto máximo da transição em velocidade. O Athlético de Tiago Nunes era realmente um furacão para contra-atacar, utilizando-se da marcação em bloco médio e baixo, bem como das transições defensivas para conseguir uma roubada de bola e sair em velocidade com mais de 20 metros de campo aberto para correr. Se organizando em um 4-4-2 sem bola, a 1º linha se certificava de estar atenta à uma desconcentração do adversário e, com isso, tomar-lhe a bola pressionando pelas costas, como no gol contra o Boca Juniors pela Libertadores. Veja o vídeo abaixo:


De fato, o furacão devastou a Copa do Brasil com seu futebol moderno, objetivo, tático e muito veloz. Um grande e barato time comandado por Tiago Nunes cujas conquistas acabaram por justificar o bom futebol praticado.




Imagens e vídeos de autoria do Esporte Interativo e da FOX Sports, e editados por João Victor.

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