Da estreia ao auge épico - Análise do Barcelona de 2009

As características de um treinador prodígio postas em um time cada vez mais insuperável




Pep Guardiola foi anunciado oficialmente como o novo treinador do Barcelona no dia 08 de maio de 2008, vindo de uma temporada de sucesso no Barcelona B. Em apenas um ano e meio, conquistou todos os títulos que disputou (Campeonato Espanhol, Copa do Rei, Champions League, Supercopas da Espanha e da Europa e o Mundial de Clubes), algo nunca realizado em toda a história do futebol. As conquistas traduzem um time esplêndido sustentado por ideias inovadoras...

FORMAÇÃO HABITUAL

Escalação do Barcelona na Final da Champions League 2009 / Wikipédia

ANÁLISE TÁTICA

O Barcelona campeão do "sextete" é um time pautado por uma transição no elenco e na forma de jogar. A contratação de Pep Guardiola é o início de uma reformulação após uma queda de produção do clube nos anos pós Champions de 2006. Nesse contexto, alguns craques daquele título acabam deixando o clube, como Ronaldinho e Deco, abrindo espaço para o surgimento de jovens promessas, como Sergio Busquets, e para a chegada de alguns contratados, como o craque francês Henry, o zagueiro espanhol, recém campeão europeu, Gerard Piqué, entre outros. 

  • Fase Defensiva
O Barça de Guardiola se notabilizou como uma equipe de futebol vistoso, de muitas trocas de passes, posse de bola e volume ofensivo. No entanto, um de seus grandes trunfos, apesar de não tão mencionado, era a solidez defensiva. Sobretudo as estratégias de recuperação da bola e a compactação para reduzir espaços, minimizando os riscos existentes pela proposta altamente ofensiva. 

Observe a imagem:



Um dos esquemas favoritos de Guardiola, o 4-1-4-1 era o sistema adotado por sua equipe em bloco médio e médio-alto. A flexibilidade desse sistema agradava o técnico, que podia se utilizar de várias variações sem perder a compactação do time, como podemos ver na imagem seguinte: 


Após se postar em um 4-1-4-1, a equipe catalã costumava subir para pressionar a saída de bola do adversário. Para isso, um dos meias deixava a linha de meio e se juntava a Messi em uma zona mais avançada para exercer pressão, enquanto o volante que separava as duas linhas de 4 ocupava seu posto, formando, agora, um 4-4-2. Essa era uma das variações mais recorrentes. 

Obviamente, para ser um time fundamentalmente propositivo, é preciso ter a bola na maior parte do tempo, o que implica em recuperá-la o mais rápido possível. E a equipe de Pep fazia isso com maestria. Veja o vídeo abaixo:


O fato de o time se dispôr espacialmente de maneira bem agrupada na fase ofensiva (Veremos como), proporcionava uma aproximação dos jogadores no momento de transição defensiva, facilitando a pressão alucinante e imediata que o Barça exercia. Importante salientar que o "perde e pressiona" era efetuado em qualquer zona do campo, ainda que no meio e no ataque com mais frequência. 

Veja o vídeo:


Outro fator importante para a funcionalidade da pressão pós perda é a superioridade. Como pôde-se ver acima, o Barça de Guardiola costumava criar superioridade numérica e posicional no meio de campo para evitar que o adversário tivesse facilidade pra tirar a bola da zona de pressão. 

O trabalho defensivo do time era invejável. Fruto de um grande comprometimento de todos os jogadores em 100% do tempo de jogo. O Barça tinha a bola, dentre outros motivos, porque marcava incessantemente para tê-la de volta o mais rápido possível. 

  • Fase Ofensiva
Com a bola, o famoso jogo de posição mostrava suas virtudes. Veja o vídeo:


São 21 passes trocados em mais de 1 minuto de posse ininterrupta. Esse lance é da final da UEFA Champions League de 2009. Ele é, praticamente, uma síntese do modelo de jogo implantado por Pep Guardiola nessa equipe. Jogo apoiado, triangulações, saída de 3... Marcas de uma essência holandesa aperfeiçoada pelo técnico espanhol. E o grande trunfo: Messi.

No vídeo, é possível observar Messi atuando centralizado, de 9. Ou melhor, "falso 9". Pep percebeu no argentino o talento absurdo para o drible, a arrancada e a finalização. Diante disso, procurou colocá-lo centralizado, onde teria mais espaço para desenvolver seu jogo. Nessa posição, Messi pode recuar e participar mais do jogo, gerando superioridade no meio, além de poder aproveitar o enorme espaço que se abre entre as linhas do adversário. Não é um 9 fixo, um centroavante, mas sim uma espécie de Meia-Atacante, que flutua por uma zona mais ampla do setor de ataque.

Por conseguinte, o processo de construção do jogo ofensivo desse Barcelona é assegurado pelos apoios. Messi recua para ser mais uma opção de passe, de apoio, para o jogador da bola no setor de meio. Assim como os jogadores presentes no setor de meio, não necessariamente os meias por definição, se aproximam dos demais setores como apoios, formando triângulos e losangos a partir desses triângulos, mantendo a posse e progredindo no campo do adversário.

Observe as imagens:


E o vídeo:


Graças aos apoios, o jogador com a bola sempre tem duas, três e até quatro opções de passe. Com efeito, o jogo flui. A marcação do adversário é dificultada, de modo que o mesmo se desorganiza, enquanto o Barça segue avançando nesses espaços gerados entre-linhas ou por fora, por meio das inversões. Veja o vídeo abaixo:


Por fim, no último terço do campo o time continua a se valer da rápida troca de passes com objetivo de quebrar a linha defensiva adversária.

Veja o vídeo:

No lance acima, novamente, o papel do jogo entre-linhas desorganizando o adversário e fazendo com que o time avance em campo e crie espaço. Ao se deparar com uma barreira no funil, à rompe por dentro e depois procura o extremo por fora (Nesse caso, Messi), no lado contrário do início da jogada, pra marcar. Troca de corredores.

Não obstante, o preenchimento da área adversária com jogadores vindo de trás é outra das várias estratégias para conclusão do Barça de Guardiola. O papel dessa aparição é vital pra aumentar o aproveitamento dos cruzamentos, uma vez que a zaga adversária, geralmente, é pega em situação de igualdade ou inferioridade numérica. Observe a imagem abaixo:


Xavi e Iniesta são os encarregados dessa chegada forte no ataque. Armam, desarmam e finalizam. São a cola que une ao mesmo tempo em que dá fluidez ao jogo da equipe. 

E por último, as infiltrações. Possuindo atacantes rápidos, como Henry, Eto'o e Messi, o Barça fez bastante uso desse tipo de jogada, na qual o movimento de ruptura associado ao passe incisivo produziu inúmeras oportunidades. Contra defesas bem montadas, essa é uma tática que, quando bem executada, cria grandes chances de marcar. 

Veja o vídeo:

Mais uma vez, a maestria de Xavi e Iniesta em transição. Representantes de uma equipe técnica e taticamente brilhante!

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