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O calvário do "país do futebol". Análise de Brasil 1 x 7 Alemanha - Copa do Mundo 2014

Por que o Brasil sofreu o maior vexame de sua história? Como a proeminência técnico-tatica da Alemanha destruiu os donos da casa? 

Reprodução/UOL

Como esquecer o fatídico jogo válido pela Semifinal da Copa do Mundo de 2014? Dentro do Mineirão, a Seleção Brasileira, até então comandada por Felipão, sofreu a derrota mais humilhante de toda a sua história. O 7x1 reverbera até hoje em terras tupiniquins, se tornou nome até de vila na Bahia. Diante disso, tentamos destrinchar as peças que construíram o placar mais largo já visto em uma Semifinal de Mundial.

FORMAÇÕES INICIAIS

Reprodução/Wikipédia

O JOGO


Apesar de entrarem com sistemas iniciais iguais, na época o 4-2-3-1 estava na "moda", Alemanha e Brasil fizeram um jogo de muita movimentação e variações desse sistema, sobretudo o time de Joachin Löw. 

Os, hoje tetracampeões mundiais, iniciaram o jogo marcando em um 4-1-4-1 com a 1º linha de 4, no meio, se desmembrando e se remontando conforme a equipe subia e descia a marcação. Kroos e Khedira tinham se alternavam no momento de abandonar a linha de meio pra auxiliar Klose na pressão à saída de 3 do Brasil. 

Veja o vídeo:


 Esse panorama se mantém por todo o 1º tempo. Saída de bola do Brasil com 3 jogadores na base, o 1º volante recuando, os zagueiros abrindo e os laterais afundando para dar amplitude. A Alemanha, por sua vez, se organiza em bloco médio, fecha as possíveis linhas de passe e vai subindo a marcação para obrigar o Brasil a rifar a bola. Cabe aqui o 1º destaque tático alemão: a coordenação no momento defensivo.

Observe o vídeo:


No vídeo acima, a equipe Alemã mostra uma sincronização quase perfeita. Kroos e Khedira se alternam para pressionar e recompor a linha de meio. Quando o passe entra, em bloco alto e médio, os meias mais próximos pressionam com superioridade numérica pra forçar o erro. Se entra já na zona média defensiva, e no corredor, o lateral do lado da o combate, enquanto o zagueiro imediatamente o cobre gerando uma sucessão de coberturas na linha de zaga, ao passo que a linha de meio recompõe e ajuda na marcação. Com isso, o Brasil consegue pouquíssimo espaço para construir jogadas de perigo.

Na frente, um ponto que se destaca é a presença assídua dos jogadores na área adversária. Os meias, vindo de trás, sempre procuravam se projetar dentro da área para auxiliar os atacantes Klose e Thomas Müller. 

Veja a imagem:


Chegar com muitos jogadores dentro da área do adversário é vital para a conclusão dos cruzamentos, bem como para o aproveitamento de bolas rebatidas. Kroos e Khedira serão figurinhas recorrentes na área brasileira durante quase todo o jogo, criando jogadas de muito perigo com bastante frequência. 

Ainda assim, o Brasil fez 15 minutos de nível razoável contra a Alemanha. Intenso. Aguerrido. Combativo. E tentando utilizar a velocidade Hulk e Bernard contra os lentos Lahm e Howedes. Contudo, a intensidade não se transforma em jogadas de perigo, tampouco em gols, e a superioridade técnica e tática da Seleção Alemã se desenha. A pressão brasileira na marcação é feita de forma errônea. Há um "ensaio" de perde e pressiona, mas os jogadores atuam distante demais uns dos outros para que ela surta efeito. E o time de Löw tirou proveito disso.

Observe o vídeo:


Esse cenário de transições ofensivas e contra-ataques alemãs com superioridade ou igualdade numérica é uma das bases para a goleada. Contudo, o 1º gol alemão sai de um escanteio muito bem ensaiado ludibriando a marcação individual do Brasil, que deixa Müller livre pra marcar. 1x0.

A partir daí, o Brasil acumula falhas técnico e táticas individuais, e a Alemanha aniquila o time de Felipão em menos de 20 minutos.

Aos 23, o 2º gol surge após duas falhas: De Oscar e Fernandinho. A do primeiro é quase imperceptível, pois diz respeito a orientação corporal de um jogador que deveria estar fechando uma linha de passe. Oscar não se posta voltado pra bola, mas sim começa a sair de seu posto para avançar na esperança de um contra-ataque. Com isso, abre-se o espaço para o passe em direção ao meia Toni Kroos. Por conseguinte, Fernandinho ao invés de sufocá-lo no recebimento do passe, tenta interceptar a bola, sem sucesso, e abre-se uma lacuna na entrada área. A partir disso, a linha defensiva se desorganiza após Dante ser obrigado a abandoná-la e é presa fácil pras trocas de posições dos atacantes Klose e Müller.

Veja o vídeo:


Com o 2x0, o time sente o baque e logo sai o 3º.

Cerca de 1 minuto depois, em mais uma transição ofensiva alemã, Ozil cai pelo centro para construir e abre o corredor para a passagem de Lahm. Ao receber, é pressionado, mas consegue a enfiada em profundidade pro lateral que cruza para Kroos livre marcar um golaço de canhota da entrada da área defensiva brasileira. O detalhe desse gol é o abandono da linha de 4 no meio por parte de Bernard, uma vez que, em bloco baixo, ele era o responsável por fechar o lado direito da 2º linha no 4-4-2 que o Brasil montava. Por conta disso, Kroos teve caminho livre. 3x0.

O 4º gol é um sintoma imediato do 3º. O Brasil sente a goleada em casa e se desestabiliza. Fernandinho, mais uma vez, protagoniza um erro capital.

Veja o vídeo:


A Alemanha faz o 4º gol apenas 3 minutos após fazer o 2º, e 15 minutos após o 1º. Goleada encaminhada e massacre em pleno Mineirão. Porém, como já sabemos, não parou por aí.

Veja o vídeo:


O 5º gol, que praticamente pôs fim ao jogo, do ponto de vista competitivo, sai aos 29 minutos do 1º tempo. Já totalmente desestabilizada, a Seleção passa a se comportar como um lutador à beira do Nocaute. Passiva, não contém o avanço do zagueiro Hummels, que enfileira três jogadores até dividir com David Luiz, que abandona a linha defensiva mais uma vez, cedendo espaço na defesa quebrada. Novamente com a projeção dos meias Toni Kroos e Sami Khedira, a Alemanha, passeando na área defensiva brasileira, faz mais um. 5x0 em 30 minutos de partida. 

Após esse ponto, a competição acaba. O Brasil está eliminado da Copa realizada em seu território com somente meia hora de jogo.

Com o jogo já definido, a Alemanha retorna do intervalo de outra forma. Se poupando, passa a jogar com seu 4-1-4-1 mais recuado. Observe a imagem abaixo:


E por extensão, o Brasil conseguiu criar algumas chances claras de diminuir o vexame, mas esbarrou na muralha chamada Manuel Neüer.

Observe o vídeo:

Além dessa grande chance, tiveram outras com Paulinho e Ramires, que entraram após o intervalo, mas o Brasil só conseguiu converter em gol no último minuto de jogo depois de levar ainda mais 2 do alemão Schurrle, que também entrou na etapa final. Esses três últimos tentos marcados foram causados muito mais pelo panorama de "jogo encerrado" do que propriamente por deficiências táticas.

Por fim, em resumo, o 7x1 evidenciou a disparidade técnica e mental entre as equipes. Taticamente, o ortodoxo Felipão não soube como fazer seus jogadores encaixarem boas transições, nem tampouco se organizarem ofensiva e defensivamente. O Brasil abusou das marcações individuais, sendo confundidos pela movimentação dos jogadores alemães. Trabalhou pouquíssimo a saída de bola pelo chão com cadência e passes precisos, pois o que se viu foram tentativas em profusão de lançamentos em direção à Bernard e Hulk. Porém, sobretudo, faltou mentalidade para suportar os primeiros gols sofridos. Vexame histórico e infindável!

Imagens e vídeos de autoria da FIFA TV, e editados por João Victor.

Comentários

  1. Um esquema com os dois laterais avançando ao mesmo tempo, e dois volantes sem qualidade de passe, tende a perecer.

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