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Os segredos da Batalha Final - Análise tática de Boca x River - Libertadores 2018 (Jogo de Volta)

O maior Superclássico da história do futebol argentino tem duelo tático intenso e muito equilibrado no último jogo da decisão



Reprodução. / GloboEsporte
Após um belo jogo na Bombonera, no qual River Plate e Boca Juniors terminaram empatados em 2x2, os eternos rivais se reencontraram pela última vez na Copa Libertadores de 2018 no Santiago Bernabéu. A grande decisão ocorreu em Madrid, na Espanha, por conta do clima de muita hostilidade produzido entre os torcedores de ambos os times na Argentina, o que, segundo a CONMEBOL, inviabilizou a realização da partida no Monumental de Nuñez. Logo, no Bernabéu, o clássico entregou um jogo memorável, que só foi resolvido após mais de 105 minutos de bola rolando.

ESCALAÇÕES INICIAIS

Fonte: Wikipédia
  • River Plate em um 4-2-3-1 ao invés do 3-5-2 do jogo de ida;
  • Boca Juniors com o mesmo 4-3-3.
O JOGO

  • Mudanças táticas nos sistemas
 O jogo começou com as duas equipes mudadas em relação aos seus sistemas táticos mostrados na Bombonera.

O River, em primeiro plano, entrou sem os 3 zagueiros. Martínez deu vaga à Nacho Fernández, que ocupou a linha de 3 meias avançados com Pitty Martínez e Palacios. 

O Boca, por outro lado, iniciou a partida com, em tese, o mesmo sistema: 4-3-3. Porém, Benedetto entrou de titular no lugar de Ábila. Com efeito, pela característica de muita mobilidade e velocidade do atacante, o 4-3-3 do time de Schelotto sofreu uma modificação. Benedetto atuou como um falso 9, não como um centroavante. Observe o vídeo abaixo:


O atacante argentino recuava até o meio para ocupar o setor às costas dos volantes do River. Com isso, ele servia como mais um apoio, uma opção de passe para a progressão do Boca no campo de ataque, além de atrair os defensores do Boca com o objetivo de gerar espaços às suas costas. 

  • Estratégias de marcação impedindo os times de construir o jogo
Na primeira meia hora de partida, Boca e River se anulavam bastante dentro do campo de jogo. Apesar das posturas distintas, o River propondo o jogo, enquanto o Boca se fecha para contra-atacar, ambos não conseguiam executar as suas ações ofensivas.

O River procurou posicionar seus jogadores em bloco alto para impedir qualquer tentativa do Boca de sair jogando, e assim, recuperar a posse para iniciar a construção de um novo ataque. Veja o vídeo:

 
Nesse momento, Martínez centraliza e marca individualmente o 1º volante do Boca, Barrios, encarregado de receber esse 1º passe para a saída de bola. Assim, Nacho se adiantava e se juntava ao Pratto, pressionando os zagueiros e fechando as linhas de passe pelo meio, enquanto os outros meias davam sustentação na zona central para o caso de um passe mais longo do Boca. A falta de alternativas geralmente levava o Boca a se livrar da bola. 

Por sua vez, a marcação da equipe de Schelotto alternava entre o bloco médio-alto e o médio-baixo. Mas sempre com a prerrogativa de reduzir ao máximo os espaços no meio de campo, e conter as tentativas do River de achar Nacho e Martínez entre-linhas. Pra isso, o time se dispunha em um 4-1-4-1, que variava pra um 4-4-2 conforme os jogadores subiam para pressionar. 


Marcação em bloco médio-baixo

Marcação do Boca em bloco médio-alto

  • Variação tática com o novo posicionamento de Enzo Pérez
Mesmo sem os 3 zagueiros, o River não abriu mão de fazer a saída de 3 na construção das jogadas ofensivas. A partir da metade do 1º tempo, elas começaram a dar resultado. O "pivô" dessa construção era o volante Enzo Pérez. O argentino recuava pelo lado direito para compor a linha de 3 com a dupla de zaga, liberando os laterais para avançar como alas até a linha de meio.


Por ter um passe mais qualificado, o objetivo de Enzo Pérez posicionado pelo lado direito era buscar esse passe entre as linhas do Boca, conectando um Nacho Fernández no meio espaço. O encaixe desse passe era vital para a progressão da equipe, bem como para a criação de chances de gol.

No entanto, pelo fato de o Boca congestionar com muita eficiência a zona central, bem compactado, o River tentava bastante a jogada com o avanço dos laterais. Os lançamentos surgiram como alternativa para romper as linhas de marcação da equipe de La Boca

Veja o vídeo:

A saída lateralizada com a bola longa dos zagueiros em direção aos laterais, apesar de muito usada no jogo, teve pouquíssima funcionalidade. O River tinha muita dificuldade para criar jogadas de perigo. E o Boca ia crescendo no jogo.

  • Boca abre o placar, mas, novamente, cede o empate em poucos minutos
Assim como na 1º partida, o Boca Juniors abriu o placar do jogo.

Veja o vídeo:


Em jogada que combina perfeitamente a estratégia de contra-atacar com o fator "Benedetto falso 9", a equipe de Schelotto largou na frente no Bernabéu aos 43 minutos do 1º tempo. O posicionamento de Benedetto mais recuado abriu um espaço nas costas do zagueiro pinola, que subiu para pressioná-lo. Sem sucesso. Benedetto arrancou e superou o adversário na velocidade, e recebeu um belo passe em profundidade. Após brilho individual, chegou cara a cara com Armani e não desperdiçou. À essa altura, o River possuía quase 70% de posse de bola, mas somente 2 finalizações. A estratégia do Boca teve êxito na 1º etapa.

Contudo, mais uma vez, a vantagem durou pouco tempo. Com a vantagem no placar, o Boca voltou para a etapa final ainda mais fechado.

Observe a imagem:


O 4-1-4-1 cedeu espaço ao 4-5-1 com uma linha de 5 no meio. Um sistema de melhor funcionalidade para a contenção das jogadas do River pelos lados. Nesse sentido, o papel dos pontas Pavón e Villa na recomposição era imprescindível. E é justamente por conta disso que o Boca logo leva o empate.

Veja o gol do River:


O gol de empate dos milionários sai por conta de um leve deslize de Pavón. O ponta argentino demora na recomposição da linha de 5, e assim, o River aproveita o espaço no lado direito para superar a marcação de Pablo Pérez, fazer uma bela tabela no meio espaço e desmontar totalmente o sistema defensivo do Boca. A bola chega à Pratto livre pra marcar com o gol vazio. Um belíssimo gol de empate do time de Gallardo.

  • A expulsão de Barrios sentencia o destino do Clássico na prorrogação
Após 90 minutos de muito equilíbrio e o empate de 3 x 3 no placar agregado, o jogo vai a prorrogação. E o equilíbrio se mantém por mais 15 minutos. São 105 minutos de uma partida nivelada ao máximo. Contudo, no 2º tempo da prorrogação, Barrios comete falta dura e recebe o 2º cartão amarelo. Uma circunstância inesperada e fatal para o time de Schelotto. 

Sem o volante, o time tentou se defender como pôde. 


A equipe montou duas linhas de 4 com apenas Ábila mais avançado (Benedetto já havia sido substituído). Mas mentalmente o Boca sentiu o baque. Com um a mais, o River aumentou o seu volume ofensivo. O meia Quintero, que entrou no 2º tempo normal, deu mais verticalidade e qualidade no passe entre-linhas, e foi o mesmo quem protagonizou o golaço da virada.

Veja o vídeo:

O River Plate soube aproveitar a superioridade numérica para abrir a defesa do Boca, alternando os lados das jogadas, rodando a bola e efetuando cruzamentos. A insistência deu resultado com Quintero. A partir daí, o Boca foi pro tudo ou nada. Desesperado, foi com os 10 jogadores restantes pra dentro da área adversária na busca pelo empate. E quase conseguiu. 


Por um capricho, a bola de Jara não entrou. O Boca persistiu, mas no lance seguinte sofreu o contra-ataque que definiu o título da Copa Libertadores de 2018 para o River Plate.


A maior final da história da maior competição da América do Sul foi vencida pelos Milionários.

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