Klopp e o frenesi que devolveu a Premier League aos Reds - Análise do Liverpool Campeão Inglês de 2019/20

Como o elétrico técnico alemão produziu um time alucinante e capaz de protagonizar a melhor campanha da história do Campeonato Inglês




Foto: Tribuna Expresso

Após 30 anos de espera, os vermelhos de Liverpool, enfim, conquistaram a Premier League. E não foi um título qualquer. O fim do jejum veio em uma temporada recheada de recordes e com um futebol, para dizer o mínimo, brilhante. A competição ainda não terminou, restam 7 rodadas, o que também tornou a equipe de Jurgen Klopp a que levantou a taça com maior antecedência. No entanto, é uma lástima que um time conhecido por ser tão contagiante e simbiótico com a sua torcida, tenha dado fim à espera em um momento tão delicado e triste, em uma conjuntura de Pandemia global.

ESCALAÇÃO HABITUAL

Fonte: GOAL 


ANÁLISE TÁTICA

Simbiose. A análise do sucesso de um dos maiores times da história da Premier League passa fundamentalmente por essa palavra. É a simbiose perfeita entre time, técnico e torcida que ergueu esta equipe ao mais alto nível de futebol. Com efeito, isso também se reproduz taticamente. O Liverpool é um time incandescente, e organizado, cujo combustível parece nunca estar perto do fim.

  • Fase Defensiva:
Antes de mais nada, o Liverpool de Klopp é um time que gosta de ter a bola. Então, defender atacando é algo primordial. Para isso, agressividade. Uma de suas maiores marcas, a pressão em altíssima intensidade se faz presente na imensa maioria de seus jogos, principalmente, a exercida em bloco alto. Observe a imagem:


De modo geral, o Liverpool costuma pôr seus três atacantes bem próximos à área adversária para pressionar a saída de bola. Os encaixes individuais nos dois zagueiros e no volante que baixa pra fazer a saída é a forma utilizada pra não só impedir a progressão, mas também gerar uma possibilidade de roubada de bola em uma zona de alto risco, próxima ao gol. 

No entanto, embora a atitude e o ímpeto sejam os mesmos, há variações na maneira como a equipe se organiza pra exercer esse tipo de pressão.


Por vezes, o time de Klopp muda a configuração de jogadores e de sistema. Na imagem acima, a marcação é feita em um 3-1 (4-2-3-1) com Firmino jogando na posição de meia avançado devido à entrada do belga Origi. Além disso, a marcação é feita por zona, fechando os espaços e as linhas de passe médio e longo na saída de bola do Sheffield United. 

A agressividade se estende pelas estratégias de marcação do Liverpool. Mas aliado à ela, há o papel fundamental da compactação e organização da equipe, fazendo com que os jogadores estejam em condições favoráveis ao gengenpressing, contrapressão em português, símbolo de Jurgen Klopp em todos os times por onde passou.

Veja o vídeo:


No vídeo, observe como o time se agrupa pra criar linhas de passe após a cobrança lateral: Os três meio campistas estão juntos no setor da bola, assim como Salah, Firmino e Mané, este último ajudando os meias. Essa proximidade possibilita a pressão após a perda da posse com superioridade ou igualdade numérica. É raríssimo pegar o Liverpool em situação de inferioridade numérica, o que só maximiza o poder das suas "zonas de guerra" montadas pra pressionar. 

É uma equipe que sufoca o seu adversário sem bola.

Por extensão, como mencionado anteriormente, o Liverpool joga com três meias e três atacantes, além dos quatro defensores, formando o bem difundido 4-3-3.


Esse sistema confere muita mobilidade aos reds. É possível ver suas linhas bem compactadas na marcação em bloco médio. O time do noroeste da Inglaterra executa perfeitamente o que se chama de "viajar junto", expressão que se refere à proximidade das linhas na movimentação pelo campo tanto em fase defensiva, como em fase ofensiva.

Um exemplo disso é a composição do time marcando em bloco baixo, mais próximo à sua própria área. 

Veja a imagem:


Quando em transição defensiva, o time recompõe sempre com 9 jogadores, às vezes 10. Os atacantes exercem funções importantes na defesa. Mané, sobretudo, cumpre bastante a função de acompanhar a descida dos laterais, recompondo com os três meio campistas e formando assim uma linha de 4 até que Firmino e Salah cheguem. Geralmente, Salah e Firmino revezam. Nessa imagem, é Firmino quem volta pelo lado esquerdo, fazendo com que os três meias possam fechar o espaço na área central do funil, já que Mané está posicionado no lado direito. Assim, o time evita a inferioridade no centro e pelos lados da defesa.

Essas estratégias de marcação proporcionaram ao Liverpool uma baita solidez defensiva, assegurada também pela presença de Alisson, que costuma aparecer pra salvar o time no momento em que essas defesas são ultrapassadas. No momento em que esse texto está sendo escrito, os reds detém o posto de melhor defesa do campeonato com apenas 21 gols sofridos em 31 jogos.

Mas como não existe perfeição absoluta no futebol, o modelo de jogo apresenta vulnerabilidades.

Veja o vídeo:


Como Alexander Arnold e Robertson costumam atuar bem abertos e um dos zagueiros sai pra dar combate, gera-se um espaço na última linha, geralmente nas costas dos laterais. Esses espaços podem ser facilmente explorados pelos atacantes adversários em velocidade, ou, como no caso do vídeo, quando a linha de meio é transposta. A atuação da linha alta, outro fator derivado da compactação em blocos avançados, também contribui com esse espaço após ser rompida.

  • Fase Ofensiva
Com bola, o frenesi aumenta. Amante do ataque rápido, de um jogo prioritariamente vertical, o Liverpool tem por objetivo chegar ao ataque da forma mais rápida possível, sem que se perca em organização. Não se trata de um time de ligações diretas, apesar deles a usarem, mas sim de uma equipe que alterna entre passes pelo chão e pelo alto, utilizando profundidade e amplitude com absoluta eficiência na construção de seu jogo.

Veja o vídeo:


O Liverpool dificilmente faz uma saída de 3. O volante baixa pra dar opção, mas não entra na linha. A saída é com os zagueiros. Bem abertos, eles recebem de Alisson e iniciam a saída, o papel do goleiro com os pés também é importantíssimo. Nesse sentido, o Liverpool executa a saída lateralizada com Arnold e Robertson, ou com o Fabinho. Outro destaque são as inversões entre os laterais. Esse é mais um ponto que ganhou muita notoriedade no jogo dos reds. Os laterais Alexander Arnold e Robertson têm o hábito de lançar bolas um para o outro, usando as suas amplitudes para abrir o campo ao máximo e desorganizar o adversário com essas inversões. 

Não obstante, há a função imprescindível de Roberto Firmino. O falso 9 de Klopp. O jogador que se movimenta por quase todos os setores do campo, oferece apoio pros pontas e pros meias, e ajuda o time a progredir. É o jogador que "faz o time jogar". Como ele recua, Henderson avança pra ocupar seu espaço e dar profundidade. Depois, retorna à sua posição pra triangular com Arnold e Salah, assim como Wijnaldum faz com Mané e Robertson.


Esse vídeo exemplifica mais uma vez o papel do atacante brasileiro na construção ofensiva do time de Jurgen Klopp. Perceba o seu recuo inicial pelo lado direito da zona central e, conforme a jogada gira pro outro lado, ele a acompanha e torna a dar apoio no setor onde a bola está. Sempre gerando superioridade.

  • Mapa de calor de Roberto Firmino na Premier League 2019/20:

Imagem/SofaScore

Mas afinal, como o Liverpool marca seus tantos gols?

Não há uma resposta única. Aliás, é justamente esse arsenal variado que faz do Liverpool o atual melhor time da Inglaterra, da Europa e do Mundo.

Em primeiro plano, como já mencionado, as ligações diretas. Os Reds usam bem o artifício dos lançamentos em profundidade que atravessam quase todo o campo.


O lançamento é feito no espaço atrás da última linha do adversário pra que um dos pontas, nesse caso Mané, infiltre em diagonal. Como tanto o Senegalês, quanto o egípcio Mohamed Salah são jogadores de extrema velocidade, ambos levam vantagem. 

Sobretudo contra times bem reativos, esse tipo de bola longa é uma boa forma de romper as linhas de marcação. 

No entanto, o carro-chefe do ensandecido time inglês é o ataque rápido.

Veja o vídeo:


Novamente, a saída de bola com os zagueiros bem abertos e Fabinho baixando pra dar opção. Após o lançamento, o Liverpool fica com a 2ª bola, sai a inversão entre laterais de Arnold pra Robertson, desmontando as duas linhas de marcação do City, e o cruzamento pro gol de Salah. Vale ressaltar a agressividade dos três atacantes. Sempre atacando os espaços na última linha com muita velocidade. Esse gol praticamente resume o jeito Liverpool de jogar. Saída lateralizada, amplitude com os laterais e linhas rompidas com rapidez. Da saída até o gol são 5 passes trocados e 22 segundos.

Vertical e letal.

E esse estilo se estende aos contra-ataques:


Mais uma vez o ataque dos espaços em velocidade. Firmino ataca o espaço nas costas de Walker, depois Salah ataca o espaço nas costas da zaga. Em três trocas de passe o time de Klopp já chega ao último terço de campo. Ainda, há constantemente pelo menos um dos três meias acompanhando a jogada com os atacantes. É prerrogativa vital que hajam 4 jogadores fazendo a transição em velocidade e agredindo a área adversária. Três dentro e um na sobra pra 2ª bola. Nesse caso foi Firmino, já que Wijnaldum entrou, mas o inverso também acontece. O revezamento de funções é frequente.

Veja o vídeo:


Nessa ocasião, Firmino sai do meio, após girar o jogo, e entra na área. Com isso, Wijnaldum fica na sobra e conta com a falha do goleiro pra marcar logo após a bola rebatida.

Por fim, o time que pôs fim ao jejum de três décadas sem título entrará pra história também pela forma como o título foi conquistado, uma equipe praticamente à prova de derrotas, eletrizante e fundamentalmente letal. Não por acaso, dominou amplamente o campeonato. Faltando 7 rodadas, é o melhor mandante, sem nenhuma derrota em Anfield, o melhor visitante, o 2º melhor ataque, a melhor defesa, o 2º em posse, o 1º em jogos sem sofrer gols e o 2º com maior número de grandes chances criadas. 

Um time completo.

Comentários

  1. Um time que tem esquema qualidade individual e conjunto, difícil ser batido.

    ResponderExcluir

Postar um comentário