Um dilema que persegue o gênio - Análise de Lionel Messi na La Liga 19/20

Messi participa diretamente de 1 gol do Barcelona a cada 61 minutos, mas multivalência excessiva reduz seu poder decisivo nos grandes jogos





Foto: UOL

O Campeonato Espanhol retorna às telas no dia 11/06 após uma parada de quase 3 meses por conta da pandemia do coronavírus. Carregado por Messi, o Barça lidera a competição com 2 pontos de vantagem para o více líder, Real Madrid. O craque argentino não só lidera a corrida pela artilharia com 19 gols, como também é o maior assistente da Liga até aqui com 12 passes para gols e o jogador que mais cria grandes chances (31). Contudo, seu posicionamento recuado, apesar de contribuir para que ele participe de todos os processos de construção da fase ofensiva, tem sido custoso nos jogos "maiores". Sua média sobe de 61, no geral, para 126 minutos pra participar de gols contra os 6 primeiros da La Liga.

STATS NA TEMPORADA

Fonte: WhoScored


ANÁLISE TÁTICA

  • Posicionamento no sistema
Com Quique Setién, Messi tem sido escalado, de forma inicial, como um atacante. Seja como um falso 9 ou como um ponta pela direita. Posições que ele sempre ocupou ao longo da carreira. No entanto, a ideia de Setién, assim como foi com Valverde, é dar liberdade de movimentação para o craque argentino, bem como reduzir suas obrigações defensivas. Nesse sentido, o 4-3-3 é o esquema preferido do atual treinador do Barcelona, seguido de perto pelo 4-4-2. E diante disso, o posicionamento de Messi varia. Observe a imagem abaixo:



No 4-3-3, Messi inicia pela ponta direita. Contudo, em fase defensiva, centraliza como um centroavante no esquema que se transforma em um 4-2-3-1 com Griezmann, Brainthwaite, ou Suárez, e Vidal, que avança para compor essa linha de três jogadores à frente dos dois volantes. Com isso, Messi não possui a obrigação de recompor atrás da linha da bola, ainda que seja importante no pressing.

4-4-2 em bloco médio

No 4-4-2, Messi forma a linha de atacantes com Griezmann à frente das duas linhas de 4. No clássico contra o Real, entretanto, o argentino teve uma maior responsabilidade defensiva por conta da postura adotada pelo Barcelona no jogo no Bernabéu, marcando mais em bloco médio e temporizando para recompor e retardar o avanço do rival.

  • O Construtor 
Como já foi dito, o Barça é carregado por Messi. 

Com bola, o craque de La Masia costuma recuar bastante pra buscar o jogo tanto na saída de bola, como na progressão da equipe em campo. Com efeito, é bem habitual ver Messi atuar como um meia central, sendo o responsável por fazer a conexão entre os setores do Barcelona. Além do argentino ainda aparecer na frente para uma eventual finalização. 

Veja os vídeos:

O futebol de posse e de controle que pratica o Barça também corrobora para esse posicionamento de Messi, visto que, ao recuar, ele promove uma superioridade numérica no meio de campo, ampliando as linhas de passe e favorecendo a progressão do time no campo. Não obstante, seu avanço ainda gera espaços para os demais meias que vem de trás. O vídeo acima é um bom exemplo.    


Nesse lance, mais um exemplo do posicionamento de Messi com bola. Começa entre as linhas de marcação do Real na zona central do campo e retrocede ainda mais, ficando na linha dos zagueiros para dar apoio. 


Acima mais um exemplo do posicionamento de Messi na fase ofensiva. O argentino inicia centralizado entre as linhas, recua até o circulo central, distribui o jogo, avança até a entrada da área, recebe e atrai a marcação para acionar Alba com espaço e agredir a área pra finalizar. Essa, por sinal, foi a melhor chance que os catalães tiveram no último clássico, vencido pelo Real Madrid por 2x0. 

Nesse contexto, fica nítido o quão participativo Lionel Messi é no Barcelona no momento ofensivo. Ocupa uma área muito grande do campo. A bola passa impreterivelmente por ele. É o grande construtor de jogadas da equipe.

Mapa de calor de Lionel Messi na La liga 19/20 / SofaScore

Contudo, essa sobrecarga de funções o limita. Contra grandes equipes, as quais possuem sistemas defensivos mais fortes, o argentino tem tido dificuldades para desequilibrar justamente por essa necessidade de atuar distante do gol.

  • O artista do último terço
Mesmo com toda a eficiência com a qual Messi desempenha todas as suas incumbências durante o jogo, é no último terço do campo que a sua magia atinge o maior nível.

Com  a sua leitura de espaço, velocidade, técnica e precisão, o craque do Barça é mortal. É um exímio rompedor de linhas, além da qualidade no embate individual.

Veja o vídeo:


No vídeo, a percepção do espaço para a infiltração nas costas da linha de zaga do Real, uma vez que Marcelo dava condição. 

E a qualidade individual:


Acima, talvez o melhor gol de Messi na temporada até aqui, contra o Eibar, cuja a atuação da Pulga foi brilhante com 4 gols marcados. Sempre procurando o espaço entre as linhas, Messi tem facilidade pra destruir as defesas a partir dessas brechas. É onde ele desequilibra. 

No jogo em questão, os dois outros gols de Messi saem de um pênalti e de um lance de oportunismo dentro da área. Obviamente, a participação do argentino como um articulador e um armador engrandece o jogo do time catalão e tem se feito, em certa medida, necessária, já que os seus demais meias não vivem boa fase. Arthur, Rakitic, Vidal e, até mesmo, De Jong, tem possuído pouca regularidade. Logo, Messi supre essa "deficiência". No entanto, apesar disso estar sendo suficiente na La Liga, o poder de decisão do gênio vem sendo minado. 

Como dito anteriormente, a média de envolvimento direto em gols de Messi cai consideravelmente contra equipes do topo da tabela. Até a parada, foram 7 jogos contra os 6 primeiros na tabela com 2 gols e 3 assistências de Messi. Nos dois clássicos contra o rival Real Madrid, nenhuma vitória e nenhum gol ou assistência.

  • A pouca contribuição defensiva
Por fim, longe de ser uma fraqueza, o capitão do Barcelona contribui pouco na parte defensiva, sobretudo na recomposição. Há de se salientar, entretanto, que tem-se uma influência da contribuição da estratégia do time. É razoável deixar o craque do time um pouco mais descansado para executar o seu trabalho com bola. Ainda assim, o parco compromisso com a parte defensiva chama a atenção.

Veja o vídeo:


O craque perde a bola e não exerce a pressão imediata como faz os seus companheiros. Diante disso, a jogada continua, a marcação flutua e Messi segue caminhando descompromissado, inclusive quando a bola chega em disputa próxima ao artilheiro. E isso ocorre com o placar ainda zerado.

Por fim, o ET de Rosário segue fazendo uma grande temporada, liderando grande parte das estatísticas da Liga Espanhola. Importante ressaltar que a sua forma de atuar, o seu posicionamento e suas muitas funções rendem frutos consideráveis ao Barcelona. É ele quem faz o time jogar. Mas o dilema entre ser mais decisivo no placar ou continuar contribuindo para o jogo como um todo se mostrou um ponto a se atentar.





Comentários

  1. Nesse jogo é notório a evolução física de Vinícius júnior e como está sendo útil para o Real, sem contar a ótima atuação de Casemiro firme e preciso na marcação

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