Brilho coletivo vs Brilho individual - Análise tática de Juventus 2 x 2 Atalanta - 32ª rodada da Série A

Jogo coletivo da Atalanta impõe ampla superioridade a Juventus de Sarri, que se salva graças à eficiência de Cristiano Ronaldo

Foto/UOL

Juventus e Atalanta se encontraram mais uma vez na Série A italiana. A Velha Senhora jogou em casa contra um dos grandes adversários da temporada. A Atalanta de Gasperini é a dona do melhor ataque da competição, além de estar classificada pras quartas da UEFA Champions League, sendo, até então, a única equipe italiana garantida nessa fase. O time de Bérgamo ainda alçava entrar na briga pelo título, uma vez que, em caso de vitória, ficariam à apenas 6 pontos da líder Juventus. Já o time de Sarri, buscava seguir no ritmo forte rumo ao título antecipado de mais um escudeto, embora o desempenho esteja longe de ser satisfatório...

ESCALAÇÕES INICIAIS

Fonte: BeSoccer
ANÁLISE TÁTICA

  • Marcação individual encaixota criação da Juve
De forma bastante incomum para o futebol praticado no século XXI, a Atalanta de Gasperini marca individualmente. Não que as equipes não a utilizem, mas o padrão por zona costuma ser o prioritário com a marcação individual sendo aplicada em algumas situações específicas do jogo. Não é o caso da Atalanta. Ela a usa como estratégia preferencial em grande parte da fase defensiva.

Observe a imagem a seguir:


Em quase todo o campo, a Atalanta coloca os seus jogadores próximos a um "alvo" da Juve, o que inclui perseguições, às vezes, bem longas. No entanto, pra evitar que a qualidade dos jogadores da Juve desmantele os encaixes, o time de Gasperini promove algumas dobras no portador.

Inclusive, é por conta disso que sai o 1º gol da equipe na partida.

Veja o vídeo:


Essa estratégia de marcação da Atalanta acabou funcionando muito bem contra um time tão burocrático e dependente do individual como a Juventus. A Velha Senhora depende demais dos recuos de Dybala e Cristiano para a articulação das jogadas de ataque, bem como para ajudar na progressão. Logo, a marcação forte em cima deles quase sempre os impediu de conseguir cumprir seus papéis, seja no ataque ou no meio de campo. No lance acima, é o desarme no argentino que gera a transição ofensiva da Atalanta com a Juve desarrumada. Bentacur até tenta cobrir Cuadrado, mas a tabela entre Zapata e o ótimo Papu Gómez termina rompendo a última linha para o gol do colombiano.

A marcação individual da Atalanta com perseguições e dobras muito bem coordenadas associada à falta de coletividade da Juventus foi essencial para a superioridade apresentada pela equipe de Gasperini durante toda a partida. Mesmo quando Dybala ou Ronaldo escapavam da marcação através do drible ou do desmarque, raras foram as chances criadas por eles no último terço. 


  • Desorganização e atitude ruim de um líder submisso
A equipe de Turim é a 2ª em posse de bola na Série A (58,4%), seguida de perto pela Atalanta (58%). Vinda de um empate e jogando em casa, esperava-se uma Juventus agressiva, rivalizando pelo domínio do jogo e das ações e se impondo no Allianz Stadium. Contudo, o que se viu foi mais uma partida monótona do elenco mais caro da Itália, algo que vem se repetindo contra os primeiros colocados do campeonato. Não obstante, os mesmos problemas da derrota na rodada passada contra o Milan tornaram a aparecer.

Como é de praxe, a Juve procurou se defender no 4-4-2.


Da direita pra esquerda em cada linha, estão: Cuadrado, Bonucci, De Ligt e Alex Sandro; Bernadeschi, Rabiot, Bentacur e Matuidi; Dybala e Cristiano Ronaldo. 

Essa tem sido a forma usada por Sarri para fazer Dybala e Cristiano "coexistirem". No entanto, o time tem sofrido para efetuar uma marcação com maior intensidade, bem como para realizar as transições defensivas de modo eficiente, tanto em bloco alto, como em bloco baixo. Logo, isso foi um prato cheio para um time tão bem coordenado, organizado e móvel como a Atalanta.

Veja o vídeo:


No lance acima, a Juventus inicia uma pressão na saída de bola do adversário, mas deixa muito espaço nas costas da 2ª linha de pressão, o que acontece por conta da distância dessa com a última linha. Com isso, a Atalanta consegue sair da pressão e progredir pelo corredor. Essa descompactação gera uma série de desorganizações na defesa. Alex Sandro sai pra dar combate e é driblado, quebrando a última linha; Bonucci sai pra cobrir o brasileiro e gera ainda mais espaço para Ilicic receber com liberdade em uma zona de alto risco pro gol bianconero.

No que se refere à transição defensiva, a Juve costuma recompor com 8 jogadores, deixando Cristiano e Dybala sem essa responsabilidade. Entretanto, isso tem sobrecarregado os jogadores de meio, inclusive possibilitando que o adversário tenham mais espaço para trabalhar no campo ofensivo. Observe o vídeo abaixo:


Após o lançamento para Papu Gómez em profundidade, a recomposição defensiva da Juventus é realizada com as duas linhas de 4. Todavia, gera-se uma situação de 3 vs 3 após a jogada girar para o lado esquerdo, com Rabiot e Cuadrado distantes demais de Pasalic e Castagne. Esses segundos de atraso são suficientes para a tabela sair e gerar, mais uma vez, uma série de desorganizações na defesa por causa dos toques rápidos e precisos da Atalanta.

Como resultado e prova, a Juve teve apenas 44% da posse de bola no 1º tempo, conseguindo equilibrar na etapa final, mas, ainda assim, terminou a partida com 49%. O time foi dominado pela Atalanta, de forma até razoavelmente ampla. Tanto na defesa, como no ataque.

As únicas chances chances criadas pela equipe de Sarri foram através de bolas transferidas para Dybala e Cristiano Ronaldo.

 
Perceba como a marcação individual da Atalanta elimina as possibilidades de passe da Juventus, que é obrigada a recuar para trocar passes entre os zagueiros. Logo, os bianconeros acabaram concentrando mais o jogo nessa zona média, em virtude da dificuldade de transpor a marcação do time de Bérgamo.

Fonte: SofaScore

A ausência de Pjanic, que culminou na utilização de Bentacur como 1º volante, também impactou bastante a dinâmica do meio de campo da Juve, uma vez que o uruguaio possui características de armação superiores à Matuidi, que acabou atuando mais avançado. Com efeito, o time teve muita dificuldade de fazer essa ligação da defesa com o ataque, de construir com apoios e proximidade.


Faltou bastante a aproximação e a associação dos jogadores de meio campo, o que fez com que o time ficasse espaçado demais com a bola, e em constante situação de inferioridade numérica.

  • Empate injusto para o time que brilhou coletivamente
O time de Gasperini mostrou novamente o porquê de ser a sensação da temporada europeia. Enfrentando mais um gigante europeu em tradição e investimento, não poupou em futebol para construir uma vitória que seria merecidíssima, mas que acabou sendo evitada pelos dois pênaltis convertidos por Cristiano Ronaldo.

Durante todo o jogo, a Atalanta dava sinais de que chegaria ao 2º gol, enquanto a Juve esteve sempre bem distante de construir o 1º, e não construiu, com bola rolando. 

Nesse sentido, o jogo coletivo da equipe de Bérgamo sobressaiu, demonstrando um jogo apoiado muito hábil, compacto ofensivamente, utilizando o jogo entrelinhas com Gómez e, depois, Malinovskyi, e com muita participação dos atacantes em todas as fases do jogo. 

Veja o vídeo:


Atacando posicionalmente ou em transições rápidas, sempre havia superioridade numérica ou posicional da Atalanta no setor da bola, criando linhas de passe com facilidade e, assim, explorando amplamente as deficiências no sistema defensivo do time da casa, bem como exercendo uma pressão pós perda altamente eficaz. De fato, os visitantes tiveram o melhor desempenho no jogo. Foi quem obteve melhor sucesso nas estratégias empregadas nas fases defensiva e ofensiva. 

E assim construiu seu 2º gol:


Novamente, a falha na recomposição da Juventus deixa espaço na entrada da área. É um problema crônico do time de Sarri, cujo técnico parece não saber como solucionar. A isenção de responsabilidades defensivas de Cristiano e Dybala tem custado caro demais para o time de Turim, sobretudo contra adversários tão qualificados e móveis com bola como a Atalanta. 

Por fim, a Juventus acabou contando a eficiência do português nas penalidades para escapar de uma derrota que seria bastante merecida. São 11 cobranças convertidas em 11 cobradas na Série A. Não é exagero dizer que o "robozão" e a "jóia" tem sido os pilares de sustentação do provável título italiano, mas que, ao mesmo tempo, tem gerado um desequilíbrio que Sarri não consegue solucionar.

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