Um caos organizado - Análise tática da Atalanta 2019/20

Como Gasperini "resgatou" a marcação individual e aliou-a com o que tem de mais moderno do futebol atual para produzir um time divertidíssimo

Fonte: ESPN

No momento em que esse texto está sendo escrito, a Atalanta ocupa a 3ª posição da Série A italiana com 78 pontos em 37 rodadas. A Juventus, no entanto, já garantiu o título do campeonato, mas esteve longe de ter praticado um bom futebol. O que não é o caso dessa Atalanta, que tem sido a sensação da temporada europeia por conta de seu futebol muito ofensivo, que faz muitos gols, mas também toma uma quantidade considerável deles. Não obstante, a equipe de Bérgamo também está classificada para as quartas de finais da UEFA Champions League em sua 1ª participação na maior competição de clubes do planeta. Não é pouca coisa. Vejamos o que esse time tem de tão especial...

FORMAÇÃO HABITUAL

Fonte: Blog Pensador Tático

ANÁLISE TÁTICA

  • Fase Defensiva
De fato, a Atalanta de Gasperini não se notabilizou apenas por seu ataque poderoso e envolvente, mas também por conta da sua forma de marcar. No Brasil, pode-se dizer que a marcação individual ainda persiste, apesar da maioria dos times executarem uma variação dela: a marcação em encaixes por setor; que, de modo geral, gera perseguições mais curtas, pois cada jogador tem responsabilidade sobre seu setor, seu espaço. Contudo, não é o que ocorre na equipe de Gasperini.

A Atalanta marca individualmente no sentido mais fiel do conceito. É claro que há variações, como veremos mais à frente, mas o "cada um pega um" é a forma preferencial com a qual esse time procura se defender. Sim, no futebol europeu isso é raríssimo. As marcações individuais geralmente são utilizadas para situações específicas, como na pressão alta ou nas bolas paradas de alguns times. Mas na Atalanta a vemos por quase todo o campo. Observe a imagem a seguir:


Esse lance, retirado da análise do jogo entre Atalanta e Juventus, mostra bem como o time distribui seus encaixes individuais pelo campo. Tanto no centro do jogo, como fora dele, cada jogador reduz o espaço de um adversário, o que faz com que a equipe não se estrutura em linhas de marcação.

Veja o vídeo:


A marcação individual tem um problema. 

Um drible, uma tabela ou qualquer desmarque ou movimentação que passe ou arraste o marcador pode gerar espaços, que por sua vez, produzem uma série de desorganizações desmanchando todo o sistema defensivo. Para evitar isso, a Atalanta monta um sistema de dobra muito organizado e eficiente. No vídeo acima é possível perceber isso no momento em que a bola chega ao Dybala. Por ser um jogador extremamente habilidoso e criativo, o risco de que ele rompa a marcação é grande. Logo, o companheiro mais próximo imediatamente dobra nele, reduzindo ainda mais seu tempo e espaço de raciocínio.

Em bloco alto, o padrão individual permanece.

 
Com todas as opções próximas de passe eliminadas, o adversário é mais facilmente induzido ao erro.

Aliás, a Atalanta costuma marcar bem alto. É um time que trabalha bastante a posse, gosta de tê-la e ainda mais de recuperá-la.

Veja o vídeo:


O perde e pressiona é fundamental para o jogo da Atalanta, pois dá pouco tempo pro adversário articular transições rápidas e contra-ataques. Nesse sentido, a equipe de Bérgamo utiliza bastante dessa estratégia de recuperação da posse, executando-a sempre com superioridade numérica, o que eleva sua eficiência.

Entretanto, como dito no começo, há variações. Em bloco baixo, a Atalanta cede ao padrão zonal e fecha os espaços com um 5-4-1, uma variação mais defensiva do 3-4-1-2 utilizado por Gasperini.


Ainda que se discuta o número de gols sofridos pela Atalanta, os números na Série A são bons. O time possui a 5ª melhor defesa do campeonato com 46 gols sofridos em 37 partidas (média de 1,24 por jogo).

  • Fase Ofensiva
É claro que é com bola que a Atalanta mais encantou o mundo do futebol na atual temporada.

Assim como o Liverpool, o time italiano é frenético. Contudo, de um modo diferente. A Atalanta de Gasperini joga bastante posicionalmente, utilizando muito os apoios, os homens entrelinhas e a troca de corredores, quase tudo intermediado por passes curtos. É uma equipe que trabalha muito a posse, mas com muita objetividade e um vasto repertório de jogadas.

Por extensão, em primeiro plano, a saída de bola é limpa.


Para fazer a saída, um dos meias baixa até os zagueiros para receber esse 1º passe. Nesse caso, quem aparece é Papu Gómez. Não obstante, um dos volantes entra na linha de zaga, transformando um dos zagueiros e lateral. No lance acima, Tolói (camisa 2 e zagueiro) fica aberto durante a saída de 3, virando um ala. Isso faz com que o ala Hateboer (camisa 33) possa avançar como se fosse um ponta pelo lado direito.

Veja mais um vídeo:


Novamente, um volante, nesse caso De Roon, entra na linha de zaga e forma uma linha de 3 com os outros dois zagueiros, ao passo que o Tolói abre como um ala e Hateboer afunda como um ponta. Nesse lance, Papu Gómez não baixa tanto e trabalha entrelinhas, fazendo triagulações para ajudar na progressão da equipe. A Atalanta transita bastante pelas pontas, usando o meio espaço para conectar com os meias e com os atacantes, quando estes recuam. Zapata e Ilicic se movimentam bastante, não são fixos. Inclusive, Ilicic chega a baixar mais que o Gómez nessa saída de bola.

Se Tolói abre no lado direito, Freuler (volante) também abre no lado esquerdo, fazendo com que o ala Goosens afunde também como um ponta. Essa é uma estratégia interessante, embora possa gerar confusão. A Atalanta baixa um dos volantes na linha de zaga, enquanto o outro abre no lado esquerdo. Com isso, Tolói abre no lado direito. E por conseguinte, Goosens e Hateboer afundam como pontas. Isso abre bastante o time, pois só Gómez e Ilicic permanecem por dentro.

É UM CAOS! Mas que conta com uma grande organização e sincronismo.

Além disso, ainda tem o papel dos defensores no ataque. Não são nem um pouco raras as incursões de Rafael Tolói no ataque. Observe o vídeo a seguir:


O zagueiro brasileiro tem total liberdade para atacar os espaços que surgem no corredor direito. Aliás, não só ele, mas os outros defensores da Atalanta também. O time joga em linha muito alta, muito por conta do estilo propositivo de jogo também, mas há uma licença pré-definida pros zagueiros avançarem no momento ofensivo.

  1. Mapa de calor de Rafael Tolói na Série A 2019/20:

O jogo ofensivo da Atalanta demanda que todos participem da construção, bem como das movimentações sem bola e coberturas para manter a compactação do time no caso de perda da posse de bola.

Por conseguinte, outro ponto fundamental no jogo da equipe é o jogo apoiado.


O time de Gasperini usa demais os apoios, e, por isso, consegue trocar passes com muita qualidade e progredir no campo do adversário. O uso do espaço entre as linhas de marcação também é fundamental para o rompimento do sistema defensivo do adversário. E o a Atalanta o utiliza muito bem. Há sempre superioridade numérica e posicional do time de Bérgamo, sobretudo no setor da bola. As movimentações criam constantes e numerosas linhas de passe. Não à toa, o time lidera a competição em grandes chances criadas (130) e em finalizações por jogo (14,5), além de ser o 3º em posse e o 4º em passes certos por jogo.

E com todas essas artimanhas defensivas e ofensivas, a Atalanta constrói muitos gols.

Veja os vídeos:



Por fim, a Atalanta de Gasperini não só é um primor ofensivo, como também é uma equipe, no geral, muito coordenada e aplicada taticamente. Seu jogo praticado possui muitos riscos, sobretudo pela marcação individual, o que exige bastante eficiência tática dos jogadores. E até aqui, apesar de não ter conquistado títulos (ainda tem a Champions pra jogar), conseguiu aliar bem o jogo bonito com os resultados. Hoje (31), 3º melhor ataque da Europa. Somente 2 gols atrás do Bayern e 4 do Manchester City.

Pouco investimento e muito futebol! 

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