A consagração incontestável do jogo coletivo - Barcelona 2 x 8 Bayern de Munique - UEFA Champions League

 


O futebol resolveu premiar a equipe mais inteligente, consistente e coletiva do mundo na atualidade. O show do Bayern do Munique contra o Barcelona passou muito longe do acaso.


As expectativas eram enormes para o confronto mais importante das quartas de final da UEFA Champions League. O duelo do jogo coletivo do Bayern de Munique teriam pela frente as individualidades do Barcelona que poderiam desequilibrar jogos importantes mais uma vez, principalmente Lionel Messi e Luís Suárez. Porém, o mundo acabou testemunhando uma constatação de como o futebol moderno premia às equipes mais inteligentes.

ESCALAÇÕES INICIAIS



ANÁLISE TÁTICA

  • Estratégias iniciais
O Barcelona jogou com Arturo Vidal como novidade pelo lado esquerdo, deixando Griezmann na reserva. A equipe tentaria explorar os lados, com lançamentos em profundidade para deixar seus dois melhores talentos em condições de finalizar. Quando a marcação triplicava para cima de Messi (principal articulador), a tentativa era tentar segurar os marcadores e buscar uma alternativa que estivesse sem marcação para este conseguir finalizar.

Enquanto isso, o Bayern de Munique mostrou sua estratégia logo no início. Mesmo sem jogos oficiais por meses, o time bávaro manteve sua intensidade e dominou a partida. Quando estava sem a bola, a marcação alta pressionava a saída de bola dos adversários. Em alguns momentos, todos os jogadores do Bayern ocupavam o campo de ataque para tentar retomar a posse, um comportamento que parece ter surpreendido o Barcelona. Cabe ressaltar que a equipe alemã se destacou por atacar pelas pontas, criar oportunidades boas de gol com lançamentos em profundidade e alta qualidade nas finalizações.


  • O primeiro ato
O roteiro deste jogo foi lentamente construído. Aos 3', o Bayern de Munique chegou ao primeiro gol, mas ninguém ainda pensava no que estava por vir nos minutos seguintes. Nesta jogada, Thomas Miller foi o responsável por marcar o gol com assistência de Lewandowski, acionado por Gnabry após cruzamento espetacular de Purisic.



A equipe catalã falhou na transição do ataque para a defesa, em um jogo que começou com bastante velocidade de bambas equipes. Por isso, repare que Thomas Muller recebe a bola com liberdade para acionar seu companheiro e abrir o placar.


  • Desatenção que poderia equilibrar o confronto
Três minutos depois, o Bayern acabou sofrendo o empate por causa de um gol contra cometido por David Alaba. Mas, podemos observar aqui atentamente a melhor jogada do Barcelona durante o jogo inteiro, com lançamento em profundidade com sucesso para Alaba receber na esquerda e rapidamente ganhar a marcação para cruzar na área tentando achar Suárez, com muito espaço para finalizar.



Alaba teve intenção de cortar no momento certo pois o passe seria certeiro, provavelmente fatal. Porém, o zagueiro acabou encobrindo seu próprio goleiro e impossibilitou qualquer chance de defesa. A jogada foi fruto da diagonal longa feita para entrar nas costas do lateral, uma das qualidades ofensivas demonstradas pelo Barcelona. O gol saiu também devido à falha de transição, desta vez para os alemães, quando Rafinha foi desarmado no meio-campo.


  • O último momento de equilíbrio
Podemos dizer que o confronto manteve-se realmente aberto neste intervalo de tempo, entre o primeiro gol do Barcelona e o segundo gol do Bayern de Munique. A equipe catalã aproveitava de bolas enfiadas e lançamentos em profundidade para tentar criar chances de gol, algo que estava rendendo enquanto o time possuía condições físicas.



Messi inclusive teve a chance de deixar o Barcelona na frente do placar, antecipando-se à marcação para ter espaço livre na direita, aplicando um cruzamento que transformou-se em um chute quase fatal, parando na segunda trave e sem chances de defesa para Neuer. Quatro jogadores tiveram oportunidade de cabecear e completar a jogada, mas nenhum deles alcançou a bola.

  • A transição para o domínio bávaro
Pela primeira vez na partida, a pressão do Bayern na saída de jogo do Barcelona acabou rendendo frutos positivos. Busquets e Sergi Roberto começariam a sofrer com as marcações de Muller e Lewandowski na entrada da área. Era o início do pesadelo: Nos primeiros 15', mesmo não conseguindo marcar gols, a equipe começou a finalizar constantemente contra o Barcelona ao ter sucesso nos desarmes antes do meio-campo.



Por volta dos 16', Hans-Dieter Flick daria um forte e discreto golpe em seu adversário. Ao trocar o posicionamento de Perisic e deslocá-lo para o lado direito, Vidal e Alba não conseguiram mais conter as chances criadas pelo Bayern.


  • O segundo ato
Com muito mais volume de jogo e condições físicas superiores ao seu adversário após mais de 20 minutos de jogo, o Bayern começou a se impor completamente de forma impiedosa contra seu adversário, não permitindo ser atacado e conseguindo estar sempre atacando.

Aos 23', Gnabry tomou a bola de Sergi Roberto e armou o ataque. Perisic recebeu o cruzamento na esquerda com total liberdade e bastante espaço para invadir a área e cruzar para o gol, deixando o placar em 2-1. Ninguém do Barcelona conseguiu acompanhar o arranque de Gnabry, pois o Barcelona sofreu pressão no seu pior lado de marcação, justamente o que tinha Semedo e Roberto.



Cabe ressaltar que, na primeira metade do 1º tempo, o Barcelona conseguiu jogar acima da média do que estava apresentando na reta final de La Liga, evidenciando que existe uma diferença considerável no nível técnico das equipes envolvidas neste confronto. Porém, a dificuldade era evidente em situações criadas taticamente pelo Bayern.

  •  O terceiro ato
Perto dos 25', o Bayern de Munique chegou ao terceiro gol. Mais uma jogada iniciada por Gnabry, que desta vez recebeu um espetacular cruzamento de Thiago na entrada da área e finalizou, aumentando a vantagem.



Cabe destacar a atuação de Goretska, que estava entre as duas linhas de marcação do Barcelona circulando com muita liberdade. Neste lance, e em diversos momentos do jogo, esteve nas costas do Busquets. Mais uma falha defensiva do Barcelona pela esquerda.

  • O quarto ato
Mais cinco minutos depois, o quarto gol do Bayern de Munique praticamente havia definido o confronto naquele momento. Thomas Muller foi às redes com assistência de Joshua Kimmich. O roteiro acaba sendo repetitivo de certa forma: Gnabry ganhou uma disputa pela bola de cabeça e conseguiu o cruzamento perfeito para explorar as deficiências do Barcelona, mais uma vez.



O Barcelona tinha criado quatro finalizações em 30', mas a pressão sofrida nas saídas de jogo matou a equipe, muito lenta na transição para a defesa. A parte física acabou pesando também, mostrando com clareza a diferença técnica. No lado esquerdo do ataque alemão, Davies e Perisic "brincavam" com Semedo e Sergi Roberto. No outro lado, Alba e Vidal não tinham aproximação e também falhavam na marcação individual contra Kimmich e Gnabry. Era o prenúncio de uma tragédia.

  • Momento simbólico
Antes do término do 1º tempo, um lance foi bastante simbólico. Em determinado momento, Messi pensou em também adiantar a marcação para criar uma pressão que inexistia na saída de jogo do Bayern. Entretanto, o atacante argentino acabou indo sozinho para a marcação e desmontou as linhas defensivas da equipe, pois seus companheiros não acompanharam sua ideia.

Literalmente, as esperanças do Barcelona para o período seguinte estiveram resumidas à Lionel Messi e Luís Suárez. Taticamente, deveria achar opções em condições para conduzir jogadas, tentando escapar da marcação tripla.

  • Barcelona diminui na individualidade
No segundo tempo, o Barcelona passou a atuar no 4-3-3 com a saída de Sergi Roberto para a entrada de Griezmann, que ficou no lado direito com função principal de auxiliar Vidal. As dificuldades estavam se repetindo, com pouco espaço para trocar passes e desenvolver lances de perigo.



O Barcelona conseguiu encontrar seu segundo gol na partida através da individualidade de Suárez, que entortou Boateng dentro da área para finalizar no canto de Neuer. Messi tomou a bola, o Bayern falhou na transição e a jogada aconteceu com lançamento em profundidade para Jordi Alba na esquerda, acionando o uruguaio.

  • O quinto ato
As esperanças do Barcelona duraram apenas quatro minutos, quando o Bayern voltou a explorar as mesmas deficiências do adversário e chegou ao sexto gol. Semedo foi novamente vencido no lance. Alphonso Davies passou por Busquets na esquerda e rolou para Kimmich complementar, o jogador que costuma ser artilheiro quando joga como volante, mas que conseguiu marcar atuando como zagueiro.



Davies é um dos melhores laterais esquerdos do futebol mundial na atual temporada e provou isso mais uma vez neste confronto. Além do comprometimento tático, das assistências e de bolas longas precisas, consegue ter habilidades e recursos específicos para serem utilizados nos momentos certos.

  • O sexto ato
Sem esboçar mais reação dentro de campo, o Barcelona apenas tentava conter-se buscando evitar uma derrota de proporções ainda maiores, visto que o placar estava 5-2 para o Bayern até então. Setién chegou a acionar Anso Fati no lugar de Busquets, fazendo a equipe terminar o jogo com formação 4-3-2-1, mas a situação apenas ficou pior nos 10 minutos finais.



Na marca dos 36', um vexame tático para qualquer time de elite. O Bayern de Munique abusou de trocar diversos passes no setor que corresponde a grande área de seu adversário sem conseguir ser desarmado, até que Philippe Coutinho conseguiu o cruzamento de cabeça para Lewandowski completar e ampliar a goleada.



  • Os atos finais, assinados por Philippe Coutinho
Os últimos dois gols tomados pelo Barcelona tiveram um toque de crueldade ainda maior. Emprestado ao Bayern de Munique na atual temporada por não ser utilizado, Coutinho marcou contra sua ex-equipe, duas vezes.


Seu primeiro gol saiu aos 40', em mais uma transição lenta do Barcelona. Lenglet perdeu a disputa de bola e Piqué não conseguiu alcançar Coutinho, que finalizou no centro da área com assistência de Müller, deixando a vantagem em 7-2.



Como se não bastasse, Coutinho marcou novamente quatro minutos depois, explorando o lançamento em profundidade de Thiago Alcântara pelo lado esquerdo. Hernandéz recebeu com tranquilidade e ajeitou para Coutinho finalizar e fechar o histórico placar de 8-2.



  • Considerações finais
Bayern de Munique 8-2 Barcelona. A vitória do jogo coletivo, onde uma filosofia de trabalho consegue se destacar acima do que qualquer jogador, confirma que o futebol atualmente não é dominado apenas por aqueles que possuem mais recursos financeiros, mas principalmente por equipes bem treinadas. Talentos individuais desequilibram em momentos oportunos de forma com que equipes inferiores tecnicamente consigam destaque, mas esta humilhação sofrida pelo Barcelona mostra que a equipe está longe de executar o melhor futebol do mundo na atualidade. Um duro golpe, um choque de realidade e os tempos de glória se foram.

Comentários