"Nó tático" de Tuchel põe o PSG na 1ª final de Champions de sua história - Análise de RB Leipzig 0 x 3 PSG

 No embate entre dois expoentes da escola alemã, o técnico do time francês triunfa pelo uso inteligente de seu grande craque


Em Portugal, o Paris Saint Germain, enfim, cumpre, pelo menos parcialmente, o objetivo principal que levou ao grande aporte de investimento no clube: disputar o título da UEFA Champions League. A equipe parisiense já vive a melhor temporada de sua história, tendo conquistado todos os quatro títulos que disputou na França (Ligue 1, Copa da Liga Francesa, Copa da França e Supercopa da França). O passaporte para a final da maior competição de clubes do planeta coroa não só a redenção de Neymar, mas, principalmente, o belo trabalho de Thomas Tuchel. Esta semifinal contra o Leipzig de Nagelsmann, sensação da Bundesliga, evidenciou que Guardiola estava certo: Tuchel é o futuro.

ESCALAÇÕES INICIAIS



ANÁLISE TÁTICA
  • Aposta do PSG na mobilidade dá resultado de início
Diferentemente do jogo contra a Atalanta, o PSG entrou sem centroavante e com algumas mudanças na escalação. Com os retornos de Mbappé e Di Maria, Tuchel apostou em um trio de ataque de mais mobilidade, construção e muito forte no drible. Não obstante, o treinador pôs o meia Paredes na vaga de Gueye na trinca de meio de campo ao lado de Ander Herrera e Marquinhos. O meia argentino possui uma qualidade maior com a bola nos pés que o senegalês.

A intenção era nítida. O treinador alemão buscou qualificar o jogo propositivo de sua equipe, esperando que o Leipzig viesse fechado para as saídas em velocidade na transição ofensiva. E foi isso que aconteceu.

Observe a imagem:


A equipe de Julian Nagelsmann se portou, no início, em um 4-1-4-1, marcando em bloco médio na maior parte do tempo. Logo, o time dava espaço para os zagueiros do PSG trocarem passes, enquanto tentava compactar sua zona de guerra para fechar os espaços entrelinhas e tirar a profundidade do PSG. Contudo, já nos primeiros minutos, houve vestígios fortes de que a estratégia não daria certo.


Sem Icardi, o homem centralizado no ataque foi Neymar. Atuando como falso 9, o craque brasileiro tinha liberdade para flutuar pelo setor de criação, bem como para infiltrar na última linha no Leipzig. Essa mobilidade fez com que o PSG conseguisse jogadas de profundidade com frequência. Seja criando ou atacando o espaço, Neymar, Mbappé e Di Maria infernizaram o sistema defensivo do time alemão.

Por extensão, o drible também foi uma arma poderosa da equipe parisiense na partida. O 1º gol nasce justamente após uma falta em Neymar.


Nesse lance, é possível ver uma movimentação ensaiada de Kimpembé e Marquinhos para confundir a marcação do Leipzig. Observe como Kimpembe está na frente um pouco antes da falta ser cobrada. Logo, o zagueiro francês ameaça ir para a bola e recua, enquanto Marquinhos entra em velocidade no espaço criado por ele para subir sem marcação e abrir o placar. Jogada muito bem ensaiada. 

  • Neymar falso 9 e domínio do meio de campo
Como mencionado anteriormente, Tuchel colocou Neymar centralizado para atuar como um falso 9, dando liberdade de movimentação para que ele ajudasse na criação de jogadas ofensivas. Entretanto, o brasileiro tinha algumas funções, provavelmente, pré-definidas.

Ao recuar para a armação das jogadas, Neymar buscava o espaço nas costas de Sabitzer, que por sua vez, era atraído por Leandro Paredes. Essas movimentações eram fundamentais para que o time conseguisse criar espaço para progredir no campo do Leipzig.

Veja o vídeo:


O PSG montava uma saída de 3 na base com Paredes e Marquinhos revezando sobre quem entraria na linha de zaga. No vídeo acima, é o Paredes. Perceba como o time de Tuchel põe Neymar e Ander Herrera nas costas da linha de 4 do 4-1-4-1 da equipe alemã, ao passo que Marquinhos fica por dentro dando opção de passe para o Paredes. Nesse sentido, o time gira e trabalha a bola buscando atrair um dos meias do Leipzig, o que gera espaço para o passe vertical encontrando Neymar entrelinhas para dar prosseguimento à jogada.

Esse tipo de situação foi uma constante durante o jogo com o time de Nagelsmann possuindo uma enorme dificuldade de conter a progressão do PSG. Com Neymar recuando, havia sempre superioridade numérica e posicional no meio de campo. A linha alta da zaga também fornecia compactação para essa superioridade, corroborando na criação de linhas de passe no setor. Além disso, o posicionamento dos laterais Bernat e Kehrer bem abertos e avançados na zona média conferia a amplitude necessária para abrir a linha de marcação do Leipzig, contribuindo ainda mais para o domínio do setor de meio campo.


  • Alterações táticas do Leipzig para buscar uma reação
Ao longo da partida, Nagelsmann tentou achar um antídoto contra os efeitos que esse domínio do PSG estavam causando ao seu time. Para isso, foi mudando seu sistema em fase defensiva.

Primeiro, alterou o 4-1-4-1 para o 4-4-2:


O 4-4-2 em fase defensiva fez com que a pressão exercida sobre a saída de 3 do PSG aumentasse, contudo, a equipe francesa ainda tinha superioridade (3vs2) para conseguir se desvencilhar dessa pressão. Esse sistema ainda deu um pouco mais de liberdade para Herrera e Neymar trabalharem nas costas dos dois meias por dentro. Vale destacar, também, o posicionamento de Di Maria e Mbappé nesses momentos em que o Neymar recuava. Ambos afunilavam para buscar romper a última linha em caso de bola longa. Perceba, na imagem, Di Maria e Mbappé posicionados entre o zagueiro e o lateral da linha de quatro defensores do Leipzig.

Por conseguinte, após o intervalo, Nagelsmann alterou mais uma vez o sistema. Agora, para um 5-3-2:


Na minutagem, o placar já está resolvido, mas esse comportamento foi mostrado logo que a equipe iniciou a etapa final. De qualquer modo, nenhum dos sistemas conferiu ao Leipzig um sucesso maior na marcação ao jogo ofensivo do Paris Saint Germain. O papel de Neymar como falso 9 foi preponderante para isso, pois, mesmo com muitas dobras exercidas em cima dele, o brasileiro quase sempre foi capaz de se livrar de seus marcadores e criar bastante espaço no setor de criação.

No que se refere ao jogo ofensivo do RB Leipzig, poucas foram as chegadas com perigo ao gol de Sérgio Rico. Das 14 finalizações da equipe Alemã, apenas 3 foram no alvo. A escalação mais leve do PSG também melhorou a transição defensiva do time, que recompunha com muito mais velocidade graças às ajudas de Di Maria e Mbappé.

Por conta disso, a única grande chance criada pela equipe de Nagelsmann foi originada após uma rara falha na pressão pós perda do Paris. Veja o vídeo a seguir:

  • Sucesso na pressão alta e classificação encaminhada
Como dito acima, a escalação mais leve do Paris Saint Germain não só melhorou o jogo ofensivo, como também o defensivo. O time de Thomas Tuchel foi mais intenso na pressão pós perda, na cobertura da bola e na pressão alta na saída de bola.

Observe a imagem abaixo:


Conforme a proposta de jogo da equipe francesa, a marcação alta foi um fator fundamental para a neutralização da construção do Leipzig. Com os três atacantes mais a subida de um dos meias tirando o passe de Kevin Kampl, o PSG impedia que a equipe alemã tivesse superioridade na saída de bola. Os encaixes individuais nesse momento do jogo retirava as opções de passe curto, proporcionando inúmeras retomadas da posse em uma zona de alto risco para o Leipzig.

O 2º gol surge nesse contexto.


Variando os encaixes para uma pressão mais zonal, tirando os espaços e as linhas de passe, o PSG consegue induzir Gulácsi ao erro, recupera a bola com a linha de zaga do Leipzig quebrada e encontra espaço para ampliar o marcador. Obviamente, tem o destaque individual para a genialidade da assistência de Neymar, mas a consciência tática coletiva mais uma vez fez a diferença.

E 3º e último tento, marcado após uma falha individual na zaga do Leipzig, mas que também ocorre pela pressão imediata dos jogadores da equipe francesa.



Por fim, o PSG foi muito eficiente na cobertura da bola contra o Leipzig. Raras foram as vezes que a equipe deixou a bola descoberta na zona média defensiva ou próximo à grande área. Sempre havia uma pressão no portador da bola, impedindo um lançamento em profundidade ou um chute de meia distância. A aplicação da equipe na fase defensiva foi bem maior que na partida anterior.

Veja o vídeo:


Perceba como o Leipzig gira a jogada, procura tabelas, mas o balanço do sistema defensivo Parisiense é muito bem executado, as linhas estão próximas e sempre há cobertura na bola, sempre há uma pressão no portador da bola. Isso dificultou bastante que o Leipzig encontrasse espaços para criar jogadas de perigo, seja posicionalmente ou em transição.

O PSG de Thomas Tuchel chega merecidamente à decisão da Liga dos Campeões. O alemão conseguiu dar um bom padrão de jogo coletivo à uma equipe recheada de grandes talentos individuais.

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