Com ou sem obrigação, Grêmio é massacrado pelo "Sampaolismo" - Análise tática de Atlético MG 3 x 1 Grêmio

 Galo engole Grêmio de Renato Gaúcho em intensidade e agressividade em noite de 2º hat trick seguido de Keno


Pela 12ª rodada do Brasileirão 2020, o Atlético MG bateu o Grêmio com propriedade dentro do Mineirão e assumiu a liderança isolada do campeonato com um jogo a menos. A equipe do argentino Jorge Sampaoli abriu uma margem de três pontos ao vice-líder Internacional, vantagem que pode chegar a seis pontos caso o time vença seu jogo adiado. Apesar das declarações de Renato Gaúcho, sempre tirando o peso de si e de sua equipe, o galo mostrou mais uma vez o abismo em relação ao que joga o tricolor gaúcho hoje, e também ao que joga grande parte das outras equipes nesse Brasileirão bem abaixo técnico, tático e fisicamente.

ESCALAÇÕES INICIAIS




ANÁLISE TÁTICA
  • Grêmio é sufocado e praticamente não joga durante 45 minutos
Com fome pela liderança, o Galo iniciou o jogo agressivo e disposto a não deixar o Grêmio jogar, algo característico nos times comandados por Jorge Sampaoli. Em fase defensiva, a equipe não costuma baixar suas linhas e dar campo para o adversário jogar. Muito pelo contrário, pressiona muito alto e com bastante intensidade, buscando roubadas de bola para acelerar na transição.

Dessa forma, o resumo do 1º tempo foi pautado nesse modo de marcar do Galo, que refletia no seu volume ofensivo. 


O Galo entrou no habitual 4-3-3, pondo sempre Sasha, Keno e Savarino para pressionar a saída de bola do Grêmio, conforme elucidado no vídeo acima. Nesse sentido, a marcação era bem feita por eles, sabendo como cortar as linhas de passe do tricolor e obrigando seus zagueiros a tentar a bola longa. A compactação na pressão exercida pelo Galo fazia com que a 2ª bola fosse do time mineiro na grande maioria das vezes. Com isso, além do Grêmio ter grande dificuldade de sair jogando, não conseguia reter essa 2ª bola, o que gerava um intenso "bate e volta" para o tricolor gaúcho, ou seja, o Galo recuperava a bola despachada e novamente fazia ela chegar às zonas de alto risco pro Grêmio através da aceleração na transição ofensiva.

Por extensão, o Atlético encurralou a equipe adversária durante quase toda a 1ª etapa, dominando a posse e criando chances de perigo em profusão. Foram 13 finalizações contra 5 do Grêmio nos primeiros 45 minutos de jogo, além de 58% a 42% de posse de bola.

O gráfico de Posicionamento das equipes ilustra bem isso. Observe abaixo:



Note como o posicionamento da linha de zaga do Galo está quase na linha divisória e a trinca de ataque em bloco bem alto, ao passo que a equipe tricolor ficou pouco à frente do circulo central, o que mostra a imposição dos comandados de Sampaoli no campo de ataque.

  • Aceleração na transição e inteligência de Sasha nos gols de Keno
Com tanto volume ofensivo, o Galo não demorou para abrir o placar com Keno.


Interessante como o time é bem treinado até em cobranças de lateral, detalhes que muitos técnicos deixam passar. O Atlético estabelece superioridade para cortar as opções de Victor Ferraz no arremesso, e com isso, não retoma de imediato, mas impede a progressão, o time gaúcho é obrigado a recuar, o Galo aperta a marcação e força o passe mais difícil. Aqui, vale ressaltar o papel de Guga, que interceptou 5 bolas durante seus 87 minutos em campo, sempre atento na cobertura ao Savarino que subia para pressionar um dos zagueiros.

A partir disso, o ponto principal desse tópico: A movimentação de Eduardo Sasha.

Percebendo a bola nos pés de Franco, o atacante logo infiltra nas costas da linha obrigando Paulo Miranda a acompanhá-lo e, assim, criando espaço para Keno receber com possibilidade de cortar para dentro e finalizar. 1x0.

E isso se repete no 2º gol do ponta atleticano.


Esse padrão de movimentação de Sasha foi fundamental para o Keno. Novamente, ele passa para o ponta e dá continuidade ao movimentando infiltrando entre o lateral e o zagueiro do lado da bola, arrastando esse último consigo e gerando tempo suficiente para o Keno levar vantagem no corte para dentro e espaço para finalizar no gol. 

  • Grêmio diminui na bola parada e leva perigo após elevar o ímpeto
No 2º tempo, o Grêmio bem que tentou voltar para o jogo subindo suas linhas e ocupando mais o campo de ataque, mas o Atlético continuou a demonstrar mais intensidade e coordenação no sistema defensivo. O time de Renato Gaúcho teve muita dificuldade para achar espaços devido ao esforço da equipe mineira na busca incessante em cobrir a bola. O portador era continuamente pressionado por um jogador atleticano, o que reduzia o perigo das bolas descobertas.

Nesse contexto, restou ao Grêmio a bola parada.


Os tricolores souberam aproveitar a marcação individual dos mandantes na bola parada para confundir os defensores e marcar com Isaque. Esse é um dos pontos vulneráveis do Galo de Sampaoli. A marcação individual abre margem para uma movimentação ensaiada e qualquer vacilo no encaixe é fatal. 

Além disso, quando teve a bola, o Grêmio ainda conseguiu criar boas chances na etapa final, apesar da dificuldade. Como nos acostumamos a ver nos times de Renato, o jogo apoiado voltou a aparecer, embora por pouquíssimos minutos. 

Veja o vídeo:


Faltou o Grêmio explorar um pouco mais essas trocas de passe rápidas, já que o Atlético insistia em fazer uma marcação bem próxima. Quando conseguiu fazer as linhas de marcação do líder se movimentarem e se desorganizarem, o tricolor criou boas chances. 

Contudo, de modo geral, o Grêmio não suportou a intensidade das zonas de guerra que o Galo criava para marcar. O time de Sampaoli se mostrou bem compacto em quase todo o tempo de jogo, sobretudo no que se refere as duas linhas de 3. Observe a imagem abaixo:


A grande mobilidade dos jogadores atleticanos possibilitava a construção de situações de superioridade numérica pelo campo, sobretudo por dentro, onde o time procurava encaixotar o portador da bola para forçar uma roubada, como pode-se ver na imagem.

  • Papel de Éverson na construção de superioridade com bola e um show de repertório
Dentre todas as virtudes de Sampaoli e seus times, uma das que mais se destaca é o repertório na construção de jogadas ofensivas.

O Atlético MG é um dos pouquíssimos times do futebol brasileiro que possui um arsenal vasto de soluções para criar gols. Nesse jogo, viu-se dois gols de aceleração na transição e troca rápida de corredores. Porém, ainda sobraria tempo para um belo gol de ligação direta em contra-ataque.


A tão falada insistência do treinador argentino em goleiros bons com os pés se justifica não só em lances como esse, mas também em outras fases de construção, como a saída de bola, tão importante no futebol atual e fator fundamental no estilo de jogo do Atlético. Diante disso, Éverson já havia mostrado eficiência nesse fundamento dentro dessa partida.


Como todo bom time propositivo, o Atlético sabe criar alternativas para a saída de bola no momento em que é pressionado, as quais passam diretamente pela construção de superioridade numérica com o uso do goleiro. Nesse caso, Éverson.



Por extensão, o time abre Guga e Arana em amplitude e baixa seus atacantes por dentro. Logo, cria muitas opções para a saída através de bolas curtas ou longas, raramente despachando. 

Por fim, na 2ª fase de construção cabe ressaltar as peças anteriormente citadas na variação ofensiva que o Galo monta. Com bola, Guga e Arana se alternam entre quem vai subir e quem dará sustentação. E isso também confundiu bastante a marcação gremista.

Veja o vídeo:


Se Arana baixa do lado esquerdo, Guga entra por dentro como um "volante". Se a jogada não fluir e girar, Guga é quem retorna a baixar, enquanto Arana avança. Ambos são apoios com bola e dão sustentação ao time, mas em funções diferentes dependendo da etapa de construção. Note que, no momento em que a bola chega em Keno após a eficiente pressão pós perda feita com auxílio de Guga, Arana afunda em velocidade como um meia pelo meio-espaço e infiltra por esse corredor, ao passo que Guga entra ainda mais para sustentar por dentro.

Com esse revezamento, os pontas em amplitude sempre tem opção, o time não perde profundidade nem sustentação durante o ataque. Equilíbro, fluidez e repertório. Assim, é muito difícil marcar e o Grêmio foi só mais um exemplo disso. Galo vence e é lider com méritos claros. Em meio à tantos times monótonos, Sampaoli expõe sua grande capacidade de aplicar um futebol moderno, variado e de qualidade.




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