Duelo de campeões que não conhecem o medo - Análise tática de Liverpool 4 x 3 Leeds: 1ª rodada da PL

 Campeão da Championship não afina diante do Campeão da Premier League no 1º grande confronto entre Jurgen Klopp e Marcelo Bielsa


O Leeds United, enfim, estreia em seu retorno à elite do futebol inglês. A equipe de "El loco" Bielsa enfrentou nada menos que o atual campeão Liverpool na 1ª rodada daquela que promete ser a grande Premier League dos últimos anos. Em Anfield, ambos os times não deixaram a desejar nem um pouco acerca do que se esperava. Um jogo fantástico de duas equipes ofensivas e muito bem organizadas. A disparidade orçamentária não causou nenhum receio sequer na forma de jogar do Campeão da 2ª divisão.

ESCALAÇÕES INICIAIS



ANÁLISE DA PARTIDA

  • Marcação alta dos Reds marca presença, mas Bielsa a explora bem
O Liverpool de Jürgen Klopp iniciou a defesa do seu título bem ao seu estilo. 

Como é de praxe, o time entrou no jogo armado em um 4-3-3 com as duas linhas de três bem móveis na estruturação da pressão em diferentes blocos do campo, sobretudo nos blocos alto e médio. Desse modo, os mandantes procuraram propor o jogo subindo suas linhas para dificultar a saída de bola do Leeds. E o duelo entre a marcação do Liverpool e os mecanismos de saída do Leeds teve início.

Logo de cara, mais precisamente aos 3 minutos de jogo, a pressão deu resultado:


No lance acima, é possível notar a presença de quatro jogadores de vermelho na pressão. São eles: Firmino, Salah, Mané e Wijnaldum. Esse último subiu para perseguir o volante do Leeds que baixou para dar opção de passe aos zagueiros. Assim, o time estabelece um 4x4 e impede a superioridade. Para sair continuar buscando ter superioridade e abrir a marcação alta do Liverpool, Bielsa pôs os laterais bem abertos e não tão afundados como se costuma ver hoje em dia. Contudo, nesse lance, Firmino segue na pressão após a inversão e força o erro do lateral Dallas. Logo, o Liverpool retoma, acelera a transição e em três toques chega no último terço com Salah e Mané. O Egípcio recebe do senegalês, gira e finaliza, gerando um pênalti após a bola ser bloqueada pelo braço do zagueiro Koch.

Salah bate e converte.

Como já explanado na análise do Liverpool de Klopp, a equipe têm como característica fundamental essa pressão exercida na saída de bola do adversário para gerar uma roubada o mais próximo do gol possível ou para induzí-lo ao erro na bola longa. Para isso, o time procura compactar bem o seu bloco de marcação com as duas linhas de três e a última linha alta. Como o Leeds tentou sempre sair de forma limpa, utilizando muitos apoios, os reds encaixavam uma marcação individual para anular a possível superioridade do time de Bielsa.

Observe a seguinte imagem:


No entanto, não demora muito para o Leeds chegar ao empate. Como dito anteriormente, Bielsa soube criar espaços no bloco de marcação dos Reds.


Em jogada parecida, o Liverpool ensaia subir suas linhas, mas, dessa vez, o Leeds usa bem o goleiro para criar superioridade e consegue sair Phillips. Note que o volante tem bastante espaço para dominar, visto que Keita, o encarregado da vez, demora para cobrir a bola. Nesse sentido, Phillips enxerga Jack Harrison atacando a profundidade nas costas de Arnold e o aciona na bola longa. O Leeds faz o adversário provar de seu veneno e, após três trocas de passe em 10 segundos, empata o jogo.

Aqui cabe ressaltar que o sentido da análise foge à cronologia, uma vez que vejo mais relevância em mostrar os padrões táticos que levaram ao resultado.

Dito isso, a tônica do jogo na 1º etapa foi o embate entre a marcação alta dos Reds e os mecanismos de Bielsa para usar essa pressão à seu favor. E assim, o Leeds criou mais um gol. Veja o vídeo abaixo:


Basicamente, Bielsa usou muito bem a amplitude para abrir a marcação do Liverpool e gerar desequilíbrios. Na saída de bola do Leeds, nessa partida, não se viu com frequência a famosa saída de três. Na verdade, ela até apareceu, mas com o goleiro sendo esse terceiro homem. Com isso, a equipe podia abrir bastante seus dois laterais, dificultando o trabalho do bloco de marcação dos reds.

 Dessa forma, o Leeds produzia uma situação complicada para o adversário. Se pressionasse o volante no meio, a bola era direcionada aos laterais. Se pressionasse nas laterais, Phillips tinha liberdade para progredir. A partir disso, os meias mais avançados eram apoios para quem recebesse esse 1º passe, e partir daí, atraía um dos zagueiros dos reds, quebrando a última linha e criando espaço para atacar em profundidade.


É claro que, no lance do gol, Van Djik deu uma bela contribuição, mas o erro só acontece por causa do sucesso na saída de bola do Leeds.

  • Panorama se inverte por coragem do Leeds e fidelidade à filosofia
Se por um lado, a equipe de Jürgen Klopp tentava tomar as rédeas do jogo através da pressão na saída de bola, o mesmo ocorreu no time de Marcelo Bielsa. Adepto do jogo de posição, da posse e do jogo ofensivo, o treinador não passou por cima de suas ideias contra o time mais letal da Inglaterra.

Inclusive, o Leeds terminou a partida com mais posse de bola que o Liverpool (48% a 52%), bem como também liderou o quesito no 1º tempo (49% a 51%) e no 2º (52% a 48%). Prova de que os campeões da segundona também buscaram ter a bola. Dito isso, o Leeds também exerceu a sua marcação em bloco alto.


A equipe também pôs três jogadores para conter a progressão do Liverpool por dentro, assim como para impedir a superioridade nos momentos em que o time montava uma saída de 3 com Henderson entrando na linha ou com um dos laterais compondo-a enquanto o outro avança, como é possível ver acima. Isso nem sempre deu resultado por causa de Firmino, que recuava como mais um homem de meio de campo para ajudar na construção. 

Não obstante, o time de Bielsa procurou ser bastante incisivo na chegada ao último terço, visando tirar vantagem da linha alta do Liverpool para desmontá-la. Esse, por sinal, é um traço de vulnerabilidade do sistema defensivo dos reds que vem desde 2018. Mas que não chega a ser algo que gere danos com tanta frequência. Ainda assim, o Leeds castigou o campeão inglês através das jogadas em profundidade.


Nesse contexto de não abrir mão da pressão e tentativa de explorar o "ponto fraco" do adversário, o Leeds criou seu 3º e último gol na partida.

Em primeiro plano, veja o vídeo que antecede o lance do gol, cujo Liverpool consegue encaixar sua pressão, impedir a superioridade do Leeds e forçá-lo ao erro.


Agora, o lance do gol, que ocorre imediatamente após o vídeo acima.


Após perder a posse da bola, o Leeds pressiona a cobrança de lateral dos reds no campo ofensivo com muitos jogadores. A superioridade numérica dá resultado, o time recupera a posse, troca de corredor e cria seu gol com Klich recebendo um passe primoroso de Hélder Costa em profundidade. Uma bela demonstração dos frutos que o jogo posicional pode render, que, ao contrário do que muitos dizem, não se trata apenas de respeitar posições de forma estática, mas sim da busca pelos tipos de superioridade, a alternância rápida de corredores, amplitude e o uso criativo da profundidade.
  • Time de Klopp mostra que bola parada ofensiva também é trabalhada
Por fim, o Leeds não saiu de Anfield somando pontos muito por conta das jogadas de bola parada. Três dos quatro gols marcados do Liverpool foram originados a partir de faltas e escanteios.


O 2º, mostrado acima, nasce após cobrança de falta de Robertson. Repare na movimentação de Salah. O Egípcio finge que vai atacar o espaço, mas permanece parado, pega a sobra e marca um golaço.

O 3º. no vídeo abaixo, surge após cobrança de escanteio também cobrado por Robertson:


Como o Leeds fazia uma marcação individual nas cobranças de escanteio, o Liverpool se utilizava de bloqueios e movimentações para enganar a marcação e abrir espaço para a corrida de Van Djik em direção à pequena área.

Os dois lances pareceram frutos do acaso? Então veja o último e derradeiro gol do jogo:


Novamente, os bloqueios e movimentações para abrir espaço ao Van Djik em projeção. No entanto, também há Fabinho, que se desloca pouco, semelhante ao que faz Salah no 2º gol do time na partida, pega a sobra e sofre o pênalti convertido pelo ponta egípcio. Todas jogadas muito bem ensaiadas e trabalhadas, influenciando diretamente no resultado.

No mais, o jogo foi equilibrado e muito divertido. Mais um show de futebol ofensivo e intenso da Premier League e mais uma prova de que é possível jogar bem com elenco limitado. Aproveitem Jürgen Klopp e Marcelo "El Loco" Bielsa.



Comentários

  1. Quando um time tem jogadores abertos nas costas dos laterais, e fundamental que o passe longo seja bem executado.

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  2. O que eu achei mais interessante é quando o passe longo não dava certo. Os jogadores subiam rápido para fazer a marcação alta, onde originou um gol.

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