Flamengo mostra evolução e vence um bom Fortaleza - Análise tática de Flamengo 2 x 1 Fortaleza: 8ª rodada

 Time executa melhor as ideias de Domenéc, mas sofre na parte defensiva bem explorada pelo Fortaleza

Fonte: UOL
No Maracanã, o Flamengo de Domenéc Torrent chegou a sua 3ª vitória consecutiva no Brasileirão 2020 ao bater o Fortaleza de Rogério Ceni. O time entrou com algumas mudanças por conta de lesões e opções do técnico catalão, e, semelhante ao que foi contra o Bahia, a equipe respondeu bem na parte ofensiva e não tão bem na defensiva. O Fortaleza endureceu bastante a partida explorando algumas das recorrentes falhas da equipe rubro-negra na atual temporada, mas, ainda assim, não conseguiu resistir ao grande volume ofensivo dos mandantes no Rio de Janeiro.

ESCALAÇÕES INICIAIS




ANÁLISE TÁTICA

  • Início agitado e jogo empatado em 15 minutos
O Flamengo entrou em campo com o 4-2-3-1, sistema pelo qual o técnico catalão da equipe rubro-negra demonstrou apreço nesse início de trabalho. Sem Bruno Henrique, machucado, o técnico optou por iniciar com Pedro e Michael de titulares, deixando o artilheiro Gabigol no banco. 

Como é de praxe desde 2019, o time carioca iniciou o jogo subindo bastante suas linhas para exercer uma pressão alta com o objetivo de dificultar a saída de bola do Fortaleza, até pela característica da equipe nordestina de procurar sempre a saída de bola limpa e pelo chão com muita participação do goleiro Felipe Alves. Logo, é nesse contexto que, logo no início de jogo, o Flamengo abre o placar:


A marcação com a linha alta induz Felipe Alves ao chutão, o Fortaleza perde a 2ª bola e comete falta que Gérson cobra rapidamente para Filipe Luís no corredor lateral esquerdo. Éverton Ribeiro, que iniciou pela ponta direita, aparece na esquerda e faz um belo cruzamento para Pedro, no qual, posteriormente, ele mesmo vai chegar pra conferir o rebote e marcar um golaço. Um gol típico do time campeão brasileiro. A pressão bem encaixada sufocando o adversário, a velocidade na transição ofensiva e a agressão a área com o centroavante e o ponta do lado oposto. Vale destacar, ainda, a movimentação de Pedro no cruzamento, que se desmarca com muita inteligência, criando espaço para receber a bola alçada.

Esse foi 2º gol marcado por Éverton Ribeiro no campeonato, o 2º tento de rara categoria.

Com 1x0 no placar, o Flamengo seguiu pressionando.

Veja o vídeo:


Dos jogos do Rubro-negro sob o comando de Dome, o ponto mais destacável tem sido a eficiência e a coordenação da pressão em bloco alto. Essa marcação tem sido ainda melhor feita do que com o Mister Jorge Jesus. 

No vídeo acima, a equipe faz uma marcação por encaixes. Gérson e Arão revezam entre quem vai subir até o limite da zona média ofensiva acompanhando o jogador do Fortaleza que baixa para fazer a saída. Se essa bola entra no corredor central, Filipe Luís se adianta também perseguindo o possível receptor e travando a jogada por ali. Nas laterais, Michael e Éverton Ribeiro impedem a progressão pelos lados, enquanto Pedro e Michael compõem a primeira linha. Dessa forma, o Fortaleza fica sem opções de saída e acaba sendo induzido ao chutão.


Para um time que preza pela posse, essa forma de marcar é essencial. Além de criar possibilidades para recuperar bolas em zonas de alto risco para o adversário, ela dificulta a progressão do adversário no seu campo e o força a "te entregar" a bola. Dito isso, o Flamengo é o vice-líder em posse de bola no Brasileirão 2020 (60,9%), terminando este jogo com 61%.

Contudo, o Fortaleza soube transpô-la.


Para progredir, no momento em que o Fla variava sua marcação para as duas linhas de 4, o Fortaleza procurou acelerar esse passe buscando um pivô de David ou Éderson (Wellington Paulista) para manter a posse, atraindo o zagueiro e gerando uma quebra na última linha. Com toques rápidos entre zagueiro, pivô e lateral, a equipe de Ceni quebrava o sistema defensivo do adversário e conseguia acionar Osvaldo em profundidade. 

Essa foi a grande arma dos nordestinos na partida. Utilizar do meio espaço para fazer triangulações e acionar o ponta nas costas de Isla. Logo, Osvaldo sofre pênalti após entrada atrasada do lateral chileno que Juninho cobra e coverte. Tudo isso em 15 minutos.

  • Fortaleza aproveita as costas de Isla
Após empatar o jogo, o Leão seguiu encontrando espaços nas costas de Isla ou mesmo na vantagem de Osvaldo sobre o lateral chileno no 1 contra 1.


A linha alta do rubro-negro nem sempre atuou em linha, o que proporcionava condição para Osvaldo atacar as costas de Isla sem impedimento. Vendo a fragilidade por esse setor, o time de Rogério Ceni seguiu insistindo e concentrando as suas jogadas ofensivas por ali, levando muito perigo toda vez que chegava por esse lado esquerdo de ataque.



Veja mais um vídeo:


Note como o Leão procura mais uma vez a bola no pivô (David), que atrai Rodrigo Caio e mantém a posse com Carlinhos, enquanto os demais meias e atacantes infiltram na linha quebrada do Flamengo e são acionados com o passe por cima. Já no último terço, a defesa do Fla fecha, mas Isla demora demais para recompor e, novamente, o Fortaleza encontra o espaço deixado por ele para criar mais uma grande chance de marcar. 

Esses são erros defensivos que Domenec vai precisar olhar com mais atenção e corrigir. Ceni soube explorar muito bem a vulnerabilidade defensiva para fazer seu time criar, apesar da equipe ter pecado na eficiência. Para se ter uma ideia, este foi 6º de 8 jogos em que a equipe da Gávea saiu de campo vazada. É a 3ª pior defesa da competição com 10 gols sofridos em 8 jogos (Empatada com Corinthians, Fluminense, Ceará, Sport, Goiás e Atlético-GO). 

  • FLA cresce no 2º tempo e é recompensado por volume
Na etapa final, com jogo empatado, o Flamengo foi pra cima do Fortaleza e encurralou o Leão no seu próprio campo. 

Foi nesse contexto que a equipe carioca mostrou que segue evoluindo bastante nos aspectos ofensivos do jogo de posição de Domenéc Torrent. Observe o vídeo a seguir:


Jogada inicia com Arão entrando na linha zaga, abrindo os zagueiros para a saída de 3. Isla avança como um ponta para dar amplitude pelo lado direito, enquanto Michael faz o mesmo no lado esquerdo. Éverton Ribeiro atua como interior se aproximando da base da jogada para dar opção de passe, formando uma linha de 3 com Gérson e Filipe Luís, que vem por dentro. Arrascaeta procura o espaço entrelinhas e Gabigol fica na referência, mas podendo sair para buscar o jogo. Essa foi a dinâmica de construção posicional do Flamengo contra o Fortaleza e foi assim contra o Bahia, porém com alguns pequenos ajustes conforme o uso de peças diferentes.

Dessa forma, a equipe busca progredir de forma limpa, criando muitas linhas de passe e atraindo o bloco de marcação adversário para o setor da bola, deixando o ponta do lado oposto com espaço para o 1x1. No vídeo acima, é Michael quem recebe a inversão rápida de Arão para o duelo contra Gabriel Dias.

Assim, o Flamengo foi acuando o Fortaleza e ocupando muito mais o campo de ataque.

Gráfico de momentos de ataque

Ao longo do jogo, o alto volume ofensivo não conseguia ser convertido em gols e, com isso, Domenec foi deixando o time cada vez mais ofensivo. Observe a imagem abaixo:


Com Gabigol, o time foi variando para o 2-3-5 que o técnico catalão já tinha tentado usar em partidas anteriores com Éverton Ribeiro dando amplitude por um lado e Isla pelo outro mais Arrascaeta, Gabigol e Michael por dentro compondo a linha de 5. Filipe Luís seguiu por dentro se juntando a Arão e Gérson na trinca de "meias". Com efeito, Dome tentava abrir o sistema defensivo do Fortaleza para facilitar a penetração e a chegada no último terço, bem como produzir mais jogadas de finalização via uso do espaço entrelinhas interior, no 1x1 ou a partir de cruzamentos.

E o Fortaleza, por sua vez, tentava responder de forma parecida.


Porém, diferente do Flamengo, o time de Ceni não usou o 2-3-5. Ainda assim, quando não conseguia transitar em velocidade, também se organizava priorizando a máxima amplitude para atacar, mas sem muito êxito.

No fim, foi o volume ofensivo flamenguista que definiu o resultado com o decisivo e inteligente Gabigol.



Para além de Gabigol, que foi muito inteligente ao diminuir o ritmo para abrir espaço frente à linha de zaga do Fortaleza e finalizar de primeira com muita precisão após cruzamento de Isla, vale destacar Éverton Ribeiro mais uma vez. O motorzinho e o jogador fundamental que faz a engrenagem do Flamengo funcionar. Faz quase tudo em campo. Nesse lance, é ele quem domina a bola longa, gira e aciona o lateral em profundidade. Constrói, e também finaliza, como poucos. Craque!

Vitória importante e que segue dando respaldo para o técnico espanhol trabalhar.

Comentários

  1. O time está evoluindo, mas precisa que os laterais estejam bem fisicamente para recompor com rapidez e dificultar essas espetadas nas pontas.

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