Como Klopp e Guardiola se anularam em Manchester? - Análise de Manchester City 1 x 1 Liverpool

 Em jogo de alternâncias e de muito equilíbrio, City e Liverpool ficam no empate após mais um capítulo dos embates entre os melhores treinadores do mundo


    Em partida válida pela 8ª rodada da Premier League 2020/21, os citizens receberam o atual campeão Liverpool no Etihad para o sempre aguardado confronto entre Pep Guardiola e Jürgen Klopp. Com o time do técnico alemão sofrendo uma epidemia de lesões, esperava-se que o City tivesse uma maior possibilidade de sair vitorioso nesse embate, inclusive pelo fato de estar pressionado graças ao início de temporada bem ruim do clube de Manchester. No entanto, o jogo entregou um equilíbrio que não se via desde a final da Supercopa da Inglaterra em 2019.

ESCALAÇÕES INICIAIS



ANÁLISE TÁTICA

  • Semelhança no sistema inicial e na organização defensiva de ambos
    Adeptos, costumeiramente, do 4-3-3, Pep Guardiola e Jürgen Klopp montaram seus sistemas para o confronto em um 4-2-3-1. No lado citizen, Cancelo improvisado de lateral e De Bruyne como "10". No lado dos Reds, Klopp tentou aproveitar a boa fase de Diogo Jota sem que precisasse perder o poder de articulação de Roberto Firmino. Logo, pôs os dois para jogar. Firmino jogando como meia-armador propriamente dessa vez, também de "camisa 10".

    Nesse sentido, ambos se organizaram defensivamente a partir de duas linhas de quatro com o "9" e o "10" na primeira linha. Observe abaixo, em primeiro plano, o City:


    O objetivo de ambos os times com o 4-4-2 sem bola era fechar o entrelinhas, por onde tanto Firmino como Kevin De Bruyne são mortais. No lado dos reds, com bola, o time pôs seu quarteto para jogar mais por dentro, buscando fortalecer o jogo associativo e densificar o setor, enquanto os laterais Arnold e Robertson atuavam abertos para dar amplitude. A procura pela diagonal longa através de inversões foi uma estratégia também utilizada por ambos os times, mas veremos isso mais à frente.

    Prosseguindo, é a vez de observar o Liverpool na marcação:


    Como mencionado anteriormente, o Liverpool também marcou a partir de um 4-4-2. Contudo, os reds, famosos por sua agressividade e intensidade alucinantes, adotaram uma postura um pouco mais reservada no jogo. Seguiram marcando alto, mas não tanto quanto de costume. A prioridade era fechar os espaços de saída do City e fazer com que, por conseguinte, a bola não chegasse à Kevin De Bruyne entrelinhas. Uma vez que o City fazia sua saída com os dois zagueiros + dois laterais abertos + dois volantes no apoio por dentro, o Liverpool fechava seu bloco e balançava sempre com bastante compactação, gerando superioridade numérica e cortando as linhas de passe tanto no corredor central quanto nos corredores laterais. 

    O time ainda flutuava para um 4-2-4 avançando seu quarteto em alguns momentos de pressão mais agressiva no último terço. Veja o vídeo:


    É notório como os reds amarraram a saída de bola da equipe de Pep Guardiola, que teve bastante dificuldade em criar superioridade no meio de campo para sair jogando.

    Essa foi a tônica do jogo, sobretudo no 1º tempo.

    Liverpool bem compacto e fechando as linhas de passe, mesmo que isso significasse deixar um homem livre no lado oposto.


  • Espaço entrelinhas aparece e os gols saem
    Diante desse contexto, a estratégia do Liverpool de dar a bola aos zagueiros do City e fechar os espaços de progressão, gerou uma posse estéril do time de Guardiola, ao passo que os reds passaram a levar vantagem na recuperação da posse na zona média e na saída em velocidade na transição. À título de exemplo, o zagueiro Rúben Diaz distribuiu cerca de 74 passes no jogo. De Bruyne, Sterling e Ferrán Torres somados deram 60.

    Logo, é em transição que o Liverpool origina seu gol.


    Repare que o Reds acha e aproveita o espaço entre as linhas do City duas vezes: A primeira, após Gomez sair muito bem da pressão pós perda do City encontrando Salah; A segunda, com Firmino ocupando o setor cujo é especialista, recebendo a bola nas costas dos volantes e acionando Mané. A jogada se desenrola e Mané sofre o pênalti de Walker que Salah bate e converte.

    Vale destacar o domínio e a leitura de distância de Mané. Ele finta Walker apenas dominando próximo ao pé, ao passo que o defensor citizen achou que ele iria para o fundo. Quando voltou, Mané foi inteligente para se projetar na "contra-mão" do movimento de Walker e sofrer o pênalti.

    Contudo, o City também achou o entrelinhas e não desperdiçou a oportunidade.



    O gol se origina a partir de uma estratégia bem utilizada por Guardiola desde sempre em seu jogo de posição: A sobrecarga do centro de jogo e suas imediações, a atração do adversário e a diagonal para o lado oposto. Observe abaixo:


    Volte ao vídeo. Veja como o City troca passes, usa a dinâmica do 3º homem para reter a posse e a circula com velocidade. Ao encontrar obstáculo, retoma e circula para o outro lado. Não é à toa. O time troca os passes para desorganizar o Liverpool, e consegue. Inicialmente, os reds estão em 4-4-2 com Mané fechando a 2ª linha. Durante a troca de passes, Mané acaba sendo atraído e deixa a linha para subir pressão, é nesse momento que gera toda a cadeia de desorganizações que o City queria. Sem Mané, Walker tem espaço, recebe a diagonal, Wijnaldum é obrigado a cobrir e Kevin De Bruyne acaba encontrando seu precioso espaço entrelinhas. O belga serve Jesus que, com uma percepção do espaço às suas costas e às costas do adversário apurada, faz o domínio orientado para o giro e marca. 1x1.

    Um gol belíssimo.

    Por extensão, explorando esse lado esquerdo da defesa dos reds, o City ainda criou mais uma oportunidade grande de marcar através também de um pênalti.


Dessa vez, o erro de Mané foi técnico. O passe de letra ficou curto, Walker recuperou e o City teve espaço para transitar.

Seria o gol da virada, mas De Bruyne acabou batendo para fora.

  • City desperdiça mais uma chance de vencer e empate é mantido
    No 2º tempo, o panorama mudou um pouco. O City seguia tendo mais posse que os reds. Porém, conseguiu sair com mais facilidade da marcação do Liverpool e chegou ao ataque com mais frequência e perigo.

    Guardiola variou sua organização ofensiva. Se, no 1º tempo, o time saía em um 4-2 (ou em um 2-2-2) como evidenciado no ínicio, na etapa final o City atuou um pouco mais no 3-2 na saída, se organizando em um 3-2-5. Veja a imagem a seguir:


    Rodri entrava na linha de zaga, Walker atuava por dentro com Gundogan e Cancelo afundava na linha de 5 com os demais homens de frente. Essa liberdade um pouco maior para Cancelo atuar no ataque rendeu a melhor chance da equipe na 2ª metade.


    Nesse lance, o detalhe que chama atenção é o perfilamento corporal do Joe Gomez. O fato dele estar com o corpo virado para a bola tira segundos de reação na bola levantada por Cancelo. Não é uma falha, mas talvez se o pé direito tivesse voltado pra própria baliza o zagueiro conseguiria cortar o cruzamento. De todo modo, Gabriel Jesus foi muito bem na movimentação para atacar a linha e não tão bem no cabeceio, e acabou errando a conclusão.

    No mais, o City teve posse (53%) e imposição para sair vitorioso, porém pecou em alguns detalhes de conclusão e também de progressão, desperdiçando boas oportunidades de criar chances de perigo.


     Por fim, o Manchester City teve uma chance ligeiramente maior de sair vencedor por conta das oportunidades e do pênalti perdido. O jogo em si foi bem equilibrado, o Liverpool finalizou mais (10 a 7) e conseguiu tirar bastante da construção de um time que tem nesse momento do jogo um dos pontos mais fortes.





  





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